sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Três poemas de Pablo Neruda




EU NÃO ME CALO
Perdoe o cidadão esperançado
minha lembrança de ações miseráveis,
que levantam os homens do passado.

Eu não preconizo um amor inexorável.

E não me importa pessoa nem cão:
só o povo me é considerável:
só a pátria me condiciona.

Povo e pátria manejam meu cuidado:
Pátria e Povo destinam meus deveres
e se logram matar o revoltado
pelo povo, é minha Pátria quem morre.

É esse meu temor e minha agonia.

Por isso no combate ninguém espere
que fique sem voz minha poesia.


A AFOGADA DO CÉU
Tecia mariposa, vestimenta
pendente das árvores,
afogada no céu e à deriva
entre fissuras e chuvas, só, só, compacta,
com roupa e cabeleira feito bandeiras
e centros corroídos pelo ar.
Imóvel, resistes
à romba agulha do inverno,
rio de água irada que te acomete. Celeste
sombra, ramo de pombas
roto de noite entre as flores mortas:
detenho-me e sofro
quando como um som lento e repleto deste frio
propagas o teu arrebol golpeado pela água.



JUVENTUDE
Um perfume como uma ácida espada
de cerejas num caminho,
os beijos do açúcar nos dentes,
as gotas vitais resvalando nos dedos,
a doce polpa erótica,
as eiras, os paióis, os incitantes
lugares secretos das casas amplas,
os colchões dormidos no passado, o acre vale verde
olhado de cima, da vidraça escondida:
toda a adolescência molhando-se e ardendo
como uma lâmpada derrubada na chuva.


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