quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dois poemas de Elizabeth Bishop



Cirque d´Hiver

É um brinquedo de corda digno de um rei

de uma outra era: cavalo e bailarina.

Um cavalo de circo, de olhos negros,

branco no pêlo e na crina

Sobre ele vai montada a bailarina.



Na ponta dos pés, ela rodopia.

Tem um ramo de flores artificiais

na saia e no corpete de ouropel.

Sobre a cabeça, traz

um outro ramo de flores artificiais



A cauda do cavalo é puro Chirico.

É formal e melancólica sua alma.

Ele sente em seu dorso a perna leve

da bailarina calma

em torno da haste que a perfura, corpo e alma,



e lhe atravessa o corpo, saindo por fim

sob seu ventre como uma chave de lata.

Ele dá três passos, faz uma mesura,

anda mais um pouco, dobra uma das patas,

anda, estala, pára e olha para mim.



A dançarina, a essa altura, está de costas.

O cavalo é o mais arguto dos dois.

Entreolhamo-nos, com certo desespero,

e dizemos depois:

“É, até aqui chegamos nós dois”.


Uma arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


Traduções de Paulo Henriques Britto

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