segunda-feira, 15 de novembro de 2010

ALGÉS

Para a Jussara Rowland
Não chegámos a ver a tempestade
e quase não vimos a feira de
coisas velhas — toldaram-se
as coisas com os preparativos
do fim. Rápidas, as mãos
dos comerciantes a apanhar
os objectos que regressavam
aos sacos, aos carros, aos intervalos.

Não tenho a certeza se
foram as pessoas que começaram
a correr quando caíram as primeiras
gotas, pesadas e distantes, se
foi o vento a crescer em espiral
e por isso os movimentos
me pareceram mais acelerados.
Ou se
durante a nossa fuga, sob os meus olhos,
passaram ainda mais coisas velhas, em trânsito
para dentro dos sacos,
para dentro dos carros.

Foi já no automóvel
que vimos as gaivotas fugidias,
desarrumadas entre os prédios,
brilhantes também,
sobre elas o mesmo sol.
Logo a seguir, as cores todas,
os dois arco-íris. Um dentro do outro, voltas
perfeitas, mais nítida a ilusão de dentro
do que a ténue sugestão de fora.

Deixámos o rio para trás, cinzento,
a nuvem carregada colada ao Tejo e, antes
do azul celeste de uma bonança superior,
o sol na nuvem branca, néon horizontal.

À medida que regressávamos à cidade,
foi desaparecendo tudo o que parecia ser.



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FERRA, Margarida. Curso Intensivo de Jardinagem. Lisboa: &Etc, 2010, p.46-47.


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