domingo, 14 de novembro de 2010

Dois poemas de Pedro Fernandes




Vulgata romântica

Ao martirológio dos suicidas me junto eu
Por drama por tolice estou
O infortúnio, a fatalidade dos desgraçados
Arraigam a pele, come a carne humana

Bate o coração morto-vivo num peito inerte
Dum homem abatido pelos seus ideais
Três ou quatro razões
Capazes de levar-me desse chão
Ao abandono voluntário da existência

Que resta de mim em essência
Tão poucas razões travadas num colóquio constante
Entre felicidade e infelicidade dum pobre diabo
Que raro adega a ter de voltar a cabeça
Ao estrondo seco dum tiro
Esmigalhando um crânio com prazo de validade corrido

A vida acabou-se num fialho de sangue
Desfez-se o homem audacioso e o homem paciente
Eles eram prova de qualquer coisa
Nomeadamente de um sentido:

A ausência dele

A mão

Era a mão
tão próxima de mim
à distância de um toque
na noite

E desejei na noite adentrar
por dentro mim
entre mãos
minhas e dele

E por que não toco?
a noite é espessa
e a distância de um toque
um abismo impossível

Deixa ela lá
lá posso abismá-la
a mão




OLIVEIRA NETO, Pedro Fernandes de. Palavras de pedra e cal. Natal: Selo Letras in.verso e re.verso, 2009.

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