quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

sem título


Compartimos a carne e o tempo
e outras cicatrizes e perguntas.
O ar e os nomes, as nuvens e o vento
e outras palavras que andam juntas.

Amor e medo e pensamento,
agora e sempre e nunca,
estranhos outros ornamentos:
querer, saber e música.

Não e esperança. Milênios
e juventude. Arco-íris
e outras visões. Incenso

e outros presentes. Saudade
e outras flores raras.
E silêncio.

Lutamos pela segurança dos túmulos
enquanto polimos grades para a vida:
honra e saber, nimbos e cúmulos
e preconceitos e becos sem saída.

Arranha-céu, auto-imagem, escritório
são outras formas de antecipação
da paz que procuramos, relação
dos muitos nomes di transitório.
Resta o amor, incerta fantasmagoria,
à meia-noite e alguns minutos
ou outros tantos para o meio-dia,
resta o amor. O resto, deixaria.

Consciência, nem tristeza ainda,
de que algum dia irei embora
e deixarei aquele minuto da madrugada,
não de casual escolha,
quando a última estrela, como uma lágrima,
treme sobre a face da aurora
e a casa do vizinho se ilumina
e o filho adolescente, chegando agora,
canta com força e beleza, misturadas
como aquele minuto da madrugada
e a aurora.


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Extraído da revista Poesia sempre, n.29, ano 15, 2008, edição Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro e publicado no site Antonio Miranda.