segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

um poema de a cobrição das filhas






o conjunto de todos os
nomes é o nome de
deus, enumeramos o diabo
e as suas questões como
dobra do nosso pecado, e não
desperdiçamos palavra alguma,
somos os mais silenciosos
súbditos, uma oferenda
débil como um peixe
ainda turvo fora de água

*

levamos a cruz ao peito
até onde a sombra nos respeita
o luto, deixamos os filhos
abertos ao sol e gritamos, como
se a morte nos ganhasse medo
e os filhos fortalecessem a
partir da fúria, sempre por perto uma
presença estranha, dizemos
que deus seja louvado

*

e os filhos calam-se
lábios fechados, perante o
nosso olhar, como
uma mudez que lhes seguramos
pela mão

*

juntamos as coisas onde
densamente fazemos os nossos
mortos comparecer, e
através da saudade seguramos
a ubiquidade do amor
para suportar, mais tarde, o enfraquecimento
radial dos corações

*

e na deflagração da
luz recolhemo-nos sob
as árvores, são árvores
de fruto, dão sombra

onde somos mostrados com
as frontes activadas e
a sagacidade da fuga ou
esplendoroso sofrimento

 
......................
Mãe, Valter Hugo. A cobiça das filhas, V. N. Famalicão. Quasi Edições, 2002.



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