sábado, 1 de janeiro de 2011

O Senhor Cogito e o Poeta de uma Certa Idade




1
o poeta em seu declínio
é um fenômeno particular

2
ele se olha no espelho
quebra o espelho

3
numa noite sem lua
ele afoga em um lago negro sua certidão de nascimento

4
ele observa os jovens
imita o ondular de suas ancas

5
presidindo uma reunião
de trotskistas independentes
incita a atear incêndios

6
escreve
ao Presidente do Sistema Solar
cartas cheias de confidências

7
o poeta de uma certa idade
em meio a uma idade incerta

8
em vez de plantar
idéias e cultivar onomatopéias
semeia exclamações eriçadas de espinhos
invectivas e brochuras

9
ora lê Isaías e ora O Capital
depois no fervor do debate
confunde-se com as citações

10
o poeta no período incerto
entre Eros que se vai
e Tânatos que ainda não desprendeu-se da pedra

11
fuma haxixe
mas não vê
nem o infinito
nem flores
nem quedas d’água
vê um cortejo
de monges encapuzados
que escalam uma encosta rochosa
tochas apagadas nas mãos

12
o poeta de uma certa idade
recorda uma infância calorosa
uma juventude exuberante
uma maturidade sem glória

13
brinca
de Freud
brinca
de esperança
brinca
de vermelho e negro
joga dados
de carne e osso
brinca e perde
é tomado por um falso riso

14
só hoje compreende seu pai
não pode perdoar a irmã
por ter partido com um ator
inveja o irmão mais novo
debruçado sobre a foto da mãe
tenta uma vez mais
persuadi-la a conceber

15
sonhos
fúteis de puberdade
o padre o catequista
os objetos salientes
e aquela inacessível Jadzia

16
ao raiar do dia observa
sua mão
espanta-se com sua pele
semelhante à cortiça

17
contra fundo azul juvenil
a árvore branca de suas veias


.........................
Publicado inicialmente na página do Facebook da Revista Inimigo rumor.