segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ossip Mandelstam



A CONCHA

Talvez não precises de mim, 
Noite; da mundial voragem 
Tal como a concha sem pérolas, 
A tua margem fui lançado. 

Tu espumas as ondas com indiferença 
E cantas com teimosia, 
Mas terás apreço, amarás 
Da concha a inútil mentira. 

Ao seu lado deitarás na areia, 
Com sua casula te vestirás, 
Um indestrutível e grande sino 
Com ela na marola erguerás. 

E as paredes da frágil concha, 
Como a casa de vazio coração 
Encherás com os sussurros da espuma, 
Com a chuva, o vento e a bruma...


LENINGRADO

Regressei a minha cidade, conhecida até às lágrimas, 
Até as veias, as inflamadas glândulas das crianças. 

Tu regressaste para cá, então bebe de um gole 
O óleo de peixe dos faróis fluviais de Leningrado. 

Descubra logo o pequeno dia de dezembro, 
Onde a gema mistura-se ao funesto breu. 

Petersburgo! Eu ainda não quero morrer: 
Tu ainda tens de meus telefones os números. 

Petersburgo! Ainda tenho os endereços, 
Pelos quais acharei as vozes dos mortos. 

Vivo na escada de fora, e na têmpora 
Me golpeia a campainha brutalmente sacada. 

E por toda noite aguardo visitas queridas, 
Chacoalhando as correntes das portas.


 * Tradução de Francisco Araújo. Publicado na revista Desenredos, de jan.-março de 2010.

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