segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Quatro poemas de Wislawa Szymborska



REPENSO O MUNDO

Repenso o mundo, segunda edição,
segunda edição corrigida,
aos idiotas o riso,
aos tristes o pranto,
aos carecas o pente,
aos cães botas.

Eis um capítulo: A Fala dos Bichos e das Plantas,
com um glossário próprio
para cada espécie.
Mesmo um simples bom-dia
trocado com um peixe,
a ti, ao peixe, a todos
na vida fortalece.

Essa há muito pressentida,
de súbito revelada,
improvisação da mata.
Essa épica das corujas!
Esses aforismos do ouriço
compostos quando imaginamos
que, ora, está só adormecido!

O tempo (capítulo dois)
tem direito de se meter em tudo, coisa boa ou má.
Porém — ele que pulveriza montanhas
remove oceanos e está
presente na órbita das estrelas,
não terá o menor poder
sobre os amantes, tão nus
tão abraçados, com o coração alvoroçado
como um pardal na mão pousado.

A velhice é uma moral
só na vida de um marginal.
Ah, então todos são jovens!
O sofrimento (capítulo três)
não insulta o corpo.
A morte
chega com o sono.

E vais sonhar
que nem é preciso respirar,
que o silêncio sem ar
não é uma música má,
pequeno como uma fagulha,
a um toque te apagarás.

Morrer, só assim. Dor mais dolorosa
tiveste segurando nas mãos uma rosa
e terror maior sentiste ao som
de uma pétala caindo no chão.

O mundo, só assim. Só assim
viver. E morrer só esse tanto.
E todo o resto — é como Bach
tocado por um instante
num serrote.


DOIS MACACOS DE BRUEGEL

É assim meu grande sonho sobre os exames finais:
sentados no parapeito dois macacos acorrentados,
atrás da janela flutua o céu
e se banha o mar.

A prova é de história da humanidade.
Gaguejo e tropeço.

Um macaco, olhos fixos em mim, ouve com ironia,
o outro parece cochilar —
mas quando à pergunta se segue o silêncio,
me sopra
com um suave tilintar de correntes.


A VIDA NA HORA

A vida na hora
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável. 
De que trata a peça
devo adivinha já em cena.

Despreparada para a honra de viver, 
mal posso manter o ritmo que peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação. 
Tropeço a cada passo no desenvolvimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.  

Não para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado —
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isso é justo — pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia. 
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.


RECITAL DA AURORA

Musa, não ser um boxeador é literalmente não existir. 
Nos recusaste a multidão ululante. 
Uma dúzia de pessoas na sala, 
já é hora de começar a fala. 
Metade veio porque está chovendo, 
o resto é parente. Ó Musa. 

As mulheres adorariam desmaiar nesta noite outonal, 
e vão, mas só ao assistir a uma luta colossal. 
Só lá as cenas dantescas. 
E o ascenso aos céus. Ó Musa. 

Não ser boxeador, ser poeta,
estar condenado a duras florbelas, 
por falta de musculatura mostrar ao mundo 
a futura leitura escolar — na melhor das hipóteses — 
Ó Musa. Ó Pégaso, anjo equestre. 

Na primeira fila um velhinho sonha docemente 
que a finada esposa ressuscitou e 
assa para ele um bolo com passas. 
Com fogo, mas não alto, para o bolo não queimar, 
começamos a leitura. Ó Musa.

* Traduções de Regina Przybycien

Nenhum comentário:

Postar um comentário