segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cinco sonetos de Walter Benjamin



TIRA-ME AO TEMPO A QUE ESCAPASTE BRUSCO

Tira-me ao tempo a que escapaste brusco
Dá-me de dentro o que teu perto estende
Como a rosa vermelha ao lusco-fusco
Da frouxa ordem das cousas se desprende

Vera afeição e amarga voz ausência
Que sinto calmo e do rubro da boca
Crestada pela rubra incandescência
Com que o cabelo em sombra púrpura toca

A fronte aflita. E a imagem far-me-á falta
De cólera e louvor que me oferecias
No pisar nobre em que levavas a alta

Bandeira cujo signo me anuncias
Só porque em mim pões teu nome bendito
Sem imagens qual Amém aflito


COMO O CORAL ALASTRA A SUA MORTE

Como o coral alastra a sua morte
A arder em árvore púrpura no seio
Do mar com a temente alma no seio
Dos braços rubros presa do mais forte

Com beijo amargo de ruína veio
A ameaça. Ela faz voto de sorte
Que acre tormento a tal mando suporte
E é-lhe paga final receio

Medida no festim desesperado
Na turvação lembra a doçura amena
Bebe o Lethes do tempo perturbado

Qual dando eternidade em mão serena
Dota a alma e a herança distribui
O ser simples de quem recusa flui.


COMO É QUE A SOLIDÃO HEI-DE IR MEDINDO?

Como é que a solidão hei-de ir medindo?
Desse-me os golpes de uso inda esta dor
Um a um sua nudez a sobrepor
Que o ritmo sem nome a foi vestindo

Mas sofro agora o tempo nu saindo
Numa levada sem nenhum teor
Gasto caudal do meu rio interior
Nem chora o peito por mais gritos vindo

Quando é que é novo ano na amargura
Quando volto a chegar-me à desventura
Que me faz falta em ocos dias vis.

Ah quando é que arde escura em cores febris
À testa do ano como a vi na altura
Do agosto em chamas funda cicatriz?


HÁ EM TODA BELEZA UMA AMARGURA

Há em toda a beleza uma amargura
secreta e confundida que é latente
ambígua indecifrável duplamente
oculta a si e a quem na olhar obscura

Não fica igual aos vivos no que dura
e a não pode entender qualquer vivente
qual no cabelo orvalho ou brisa rente
quanto mais perto mais se desfigura

Ficando como Helena à luz do ocaso
a língua dos dois reinos nâo lhe é azo
senão de apartar tranças ofuscante

Mas à tua beleza não foi dado
qual morte a abrir teu juvenil estado
crescer e nomear-se em cada instante?


VIBRA O PASSADO EM TUDO O QUE PALPITA

Vibra o passado em tudo o que palpita
qual dança em coração de bailarino
ao regressar já mudo o violino
e há nuvens sobre o bosque em que transita

À paz dos seres a morte em seu contínuo
crescer em ramos de coral incita
a bem da noite negra e infinita
ser um raro instrumento é seu destino:

O cetro dos eleitos que não cansam 
o corpo que este tempo já não quebra
é como a cruz que os astros quando avançam

sobre o sul traçam por medida e regra
Os deuses têm-no em suas mãos cativo
risível é quem eles mandam vivo. 

* Traduções de Vasco Graça Moura


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