sexta-feira, 11 de maio de 2012

Um poema de Juan Gelman



eu também escrevo contos


havia uma vez um poeta português/
tinha quatro poetas dentro dele e vivia muito preocupado/
trabalhava na administração pública e onde é que já
se viu um funcionário público de portugal ganhando o suficiente para alimentar quatro bocas/

toda noite fazia a chamada de seus poetas incluindo-se a si mesmo/
um esticava a mão pela janela e os astros caíam-lhe ali/
outro escrevia cartas ao sul/
o que estão fazendo do sul?/ dizia/
de meu uruguai?/ dizia/ o outro
converteu-se num barco que amou os marinheiros/
isto é belo porque nem todos os barcos agem assim/
há barcos que preferem olhar pela escotilha/

há barcos que afundam/
Deus caminha aflito por esse fenômeno/
é que nem todos os barcos se parecem aos poetas do português/
saíam do mar e secavam seus ossinhos ao sol/

cantando a canção de teus peitos/ amada/
cantavam que teus peitos chegaram certa tarde com uma escolta de horizontes/
isso cantavam os poetas do português para dizer que te amo/
antes de separar-se/ estender a mão ao céu/ escrever cartas ao uruguai
que chegarão amanhã/
amanhã chegarão as cartas do português e varrerão a tristeza/
amanhã vai chegar o barco do português ao porto de montevidéu/
sempre soube que entrava nesse porto e se fazia mais belo/

como os quatro poetas do português/
quando se preocupavam todos juntos pelo homem da tabacaria de frente/
o animal de sonhos do homem da tabacaria de frente/
galopando como dom josé gervásio artigas pela fome mundial/

o português tinha quatro poetas olhando para o sul/ para o norte/ para o muro/ para o céu/
dava de comer a todos com o salário de sua alma/
ele ganhava o salário na administração do país público/
e também olhando o mar que vai de lisboa ao uruguai/

eu sempre estou esquecendo coisas/
uma vez esqueci um olho na metade de uma mulher/
outra vez esqueci uma mulher na metade do português/
esqueci o nome do poeta português/
do que não me esqueço é de seu barco navegando rumo ao sul
de sua mãozinha cheia de astros/
golpeando contra a fúria do mundo/ com
o homem da frente na mão


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Publicado inicialmente em A biblioteca de Raquel.