quarta-feira, 15 de agosto de 2012

2 poemas inéditos de Euclides da Cunha



No dia em que se fecham os 103 anos da trágica morte de Euclides da Cunha (vá por aqui, para saber mais do caso) publicamos dois poemas inéditos do escritor de Os sertões. O material foi publicado num encarte da edição dos Cadernos de Literatura Brasileira produzido pelo Instituto Moreira Salles:





No túmulo de um inglês

És bem feliz mylord!... na tua tumba fria
Um sono gozas, bom – no seio da soedade
Feliz!... não tens o Sol de tu’Albion sombria
Mas tens o olhar de Deus – o Sol da eternidade!...

És bem feliz mylord a triste ventania
Soluça nos ciprestes os cantos da saudade...
Quem sabe se te traz – em vozes de agonia –
Os risos e as canções de tua mocidade!...

Estás livre do spleen... invejo-te deveras...
Do túm’lo a sombra espanca as pálidas quimeras.
- Em teu berço de pedra embala-te a soidão...

És bem feliz mylord – assim antes fora!...
Tu tens a calma eterna, a solidão sonora
E tu não tens – feliz – não tens – teu coração...

Rio – 2 de Novembro de 1883.



Cenas da escravidão

I

Acabara o castigo... áspero, cavo –
Cheio de angústia um grito lancinante
Estala atroz na boca hirta, arquejante
Na boca negra, esquálida do escravo...

O seu algoz... oh! não – íntimo travo
O seu olhar espelha – rubro, iriante...
É um escravo também, brônzeo, possante
Arfa-lhe em dor o peito largo e bravo!...

Cumprira as ordens do Senhor... tremente
Fita o infeliz – calcado ao chão, dolente,
Velado o olhar num dolorido brilho...

Fita-o... depois, num ímpeto sublime
Ergue-o no peito cálido o comprime,
Cinge-o a chorar – Meu filho!.... pobre filho!...

Euclides
1884

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