sábado, 25 de agosto de 2012

Soneto

Maria Madalena em êxtase. Caravaggio, 1606.

fac-símile de "Soneto", poema de Camilo Pessanha




...e lhe regou de lágrimas os pés e os
enxugou com os cabelos da sua cabeça.
        
Evangelho de S. Lucas.
   
          
    
    
Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,
       
De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensanguentado, enxovalhado, inútil,
         
Dentro do peito, abominável cómico!
Morrer tranquilo, - o fastídio da cama.
Ó redenção do mármore anatómico,
           
Amargura, nudez de seios castos!...
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos!
      

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