segunda-feira, 3 de setembro de 2012

2 poemas de William Carlos Williams

Vicent Van Gogh. Vaso com cravos brancos e vermelhos, 1887.



O vaso de flores

Rosa confundido ao branco 
flores e flores reversas
recolhem e derramam a flama velada
atirando-a de volta
cornucópia da lâmpada

pétalas obscurecidas de través com malva

vermelho onde em volutas
cada pétala põe seu fulgor sobre outra pétala
volta de gargantas flamiverdes
pétalas radiantes de luz transverberada
pelejando
           no alto
as folhas
estirando o seu verde acanhado
para fora da borda do vaso

e eis ali o vaso, de todo obscuro
garrido em sua capa de musgo.

The pot of floers 

Pink confused with white
flowers and flowers reversed
take and spill the shaded flame
darting it back
into the lamp's horn

petals aslant darkened with mauve

red where in whorls.
petal lays its glow upon petal
round flamegreen throats

petals radiant with transpiercing light
contending
             above
the leaves
reaching up their modest green
from the pot's rim

and there, wholly dark, the pot
gay with rough moss.

O direito de passagem

Transitando com a idéia posta
em nada deste mundo

a não ser o direito de passagem
eu desfruto a estrada por

efeito de lei —
vi

um homem de idade
que sorriu e desviou o olhar

para o norte, além de uma casa —
uma mulher de azul

que estava rindo e se
inclinando para a frente

a fim de olhar o rosto meio
voltado do homem

e um menino de uns oito anos que
olhava para o meio da

barriga do homem
para uma corrente de relógio —

A suprema importância
deste inominado espetáculo

fez com que eu acelerasse
ao passar por eles sem palavra —

Por que me importaria o rumo?
e lá fui rodando sobre as

quatro rodas do meu carro
pela estrada molhada até

que vi uma moça com uma perna
sobre o parapeito de um balcão.


The right of way

In passing with my mind
on nothing in the world

but the right of way
I enjoy on the road by

virtue of the law —
I saw

an elderly man who
smiled and looked away

to the north past a house —
a woman in blue

who was laughing and
leaning forward to look up

into the man's half
averted face

and a boy of eight who was
looking at the middle of

the man's belly
at a watchchain —

The supreme importance
of this nameless spectacle

sped me by them
without a word —

Why bother where I went?
for I went spinning on the

four wheels of my car
along the wet road until

I saw a girl with one leg
over the rail of a balcony.


..............................
WILLIAMS, Carlos William. Poemas. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Nenhum comentário:

Postar um comentário