sábado, 16 de fevereiro de 2013

Poema no domingo de Páscoa



No domingo de Páscoa
vi um cego a almoçar num restaurante.
Levava o garfo à boca, e entretanto sorria,
cândidamente,
como só os cegos sabem sorrir.
Comia frango, e ao servir-se do garfo ora trazia
comida nova, ora coisa nenhuma,
ora tendões e peles já antes mastigados,
ora tudo junto,
dependurado de qualquer maneira,
sorrindo sempre, cândidamente.

Eu então levantei-me, e assim mesmo,
de sapatos castanhos,
calças e casaco da mesma cor,
alto, magro e bastante calvo,
aproximei-me do cego
e disse-lhe imperativamente:
– Abre os olhos!

Que ridículo!
Uma coisa que só aos deuses pertence.


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GEDEÃO, António. "Poema no domingo de Páscoa". In: Revista Colóquio/ Letras, Lisboa, n.1, março de 1971.

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