sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Dois poemas de Seamus Heaney



Poema
para Marie
Amor, aperfeiçoarei para você o menino
Que em meu cérebro com diligência manheira
Cava com pá pesada e faz com relva arrimo
Ou patinha no esterco de funda caleira.

Todo ano eu semeava o metro de jardim.
Com camadas de céspede o muro eu erguia
Para ter distantes galinhas e bacorim.
Todo ano, à entrada deles, o monte ruía.

Ou no lodo sugante eu chapinhava
Com gosto e representava fluidez da caleira,
Mas sempre meus bastiões de argila e vasa
Rompiam-se com a vinda da chuva-criadeira.

Amor, aperfeiçoe para mim este menino
De estreitos e imperfeitos limites quebrando ao léu:
Dentro em novos limites agora, ordene o domínio
E quadre o círculo: quatro paredes e um anel.


Seguidor

Meu pai lavrava com charrua e cavalo.
Os ombros redondos como velas pandos
Entre os varais e o sulco. Bastava um estalo
De língua e os cavalos iam forcejando.

Um conhecedor. Colocava a travessa
E ajustava a relha de aço agudo e vivo.
Rolavam sem quebrar os torrões de terra.
Na borda do campo, a um tirão imprevisto

De rédeas, a junta suarenta virava
E voltava para o terreno. Ele
Estreitava um olho a fitar a lavra,
Traçando o sulco exatamente.

Eu tropeçava nas pegadas das botas,
Caía às vezes na céspede luzida;
Às vezes ele levava-me nas costas
Descendo e subindo ao ritmo da lida

Eu queria crescer e lavrar,
Fechar um olho, firmar os braços.
Tudo o que fiz foi seguir sem parar
Pela fazenda à sombra de seus passos.

Um estorvo, falante, falseando,
Caindo sempre. Mas agora
É meu pai que vive tropeçando
Atrás de mim, e não vai embora.


In: Poemas 1966-1987. Tradução de José Antonio Arantes São Paulo: Companhia das Letras, 1998.


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