segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Dois sonetos de Zila Mamede

A poeta Zila Mamede.


Mar morto

Parado morto mar de minha infância
sem sombras nem lembranças de sargaços
por onde rocem asas de gaivotas
perdendo-se num rumo duvidoso.

Pesado mar sem gesto, mar sem ânsia,
sem praias, sem limites, sem espaços,
sem brisas, sem cantigas, mar sem rotas,
apenas mar incerto, mar brumoso.

Criança penetrando no mar morto
em busca de um brinquedo colorido
que julga ver no mar vogando.

Infância nesse mar que não tem porto,
num mar sem brilho, vago, indefinido,
onde não há nem sonhos navegando.


Frustração

O poeta, em verde sonho desposado
perdeu-se na fumaça, descontente.
Onde o gesto, onde a musa permanente
fincou raiz? em solo devastado?

Palavras. Só palavras. Concentrado
o pensamento voga, de repente,
por mares de salina, indiferente
ao poeta, àquele sonho evaporado.

Fantasmas de mil coisas na retina:
um grito azul - nas sombras da neblina,
inconsequente flor a soluçar.

Em vestes de loucura embevecida,
o poeta, a muda face desprendida,
o morto sonho verde atira ao mar.

In: MAMEDE, Zila. Navegos - A herança. Natal: EDUFRN, 2003.