terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Quatro poemas de Juan Gelman



limites

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Só a esperança tem os joelhos nítidos.
Sangram.


Basta...

basta
nada quero mais da morte
nada quero mais da dor ou sombras basta
meu coração é esplêndido como uma palavra

meu coração se tornou belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é desde cedo um passarinho
e depois é o teu nome

teu nome se eleva todas as manhãs
esquenta o mundo e declina
solitário em meu coração
sol em meu coração.


claro que morrerei

claro que morrerei e hão-de levar-me
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei-de morrer totalmente

claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão-de pensar-se de novo
na humidade da terra

eu cá não quero caixão
nem roupa

que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti


soneto

senhor meu coração: rogo-te que
não estales agora/por agora/não
afunda teu rosto no que conheceste/
não arda contrário a tua razão de fé/

não te rompas contra o presente de
calar/calar/calar/calar/e não
mates o espaço que te foi dado por
um animal de raiva e outro de

dor que vai e te come coração
para que não te sobre coração
e humano ande e muito doa se

vendo que tanto humano coração
abraça o luto de seu coração
e coração e humano e cala e que/

Os dois primeiros poemas têm tradução de Antonio Miranda. "soneto" está no livro Isso, traduzido por Leonardo Gonçalves e Andityas Soares de Moura e publicado pela Editora da UnB.



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