quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Nove poemas de quando Blaise Cendrars esteve no Brasil traduzidos por Pagu

Em 1924, a convite dos modernistas, Blaise Cendrars esteve por São Paulo, Rio de Janeiro e cidades históricas de Minas Gerais. Com ele, entre outros, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, que ilustrou Feuilles de Route, livro de Cendrars de publicado no mesmo ano e contém uma série de poemas escritos a partir e sobre sua passagem pelo Brasil. Na edição de 9 de setembro de 1956, o jornal A Tribuna, apresenta uma tradução feita por Patrícia Galvão, Pagu, de parte desses poemas.

Olívia Guedes Penteado, Blaise Cendrars, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade Filho e Oswald de Andrade na Fazenda Santo Antônio, em Araras, São Paulo, 1924.

Chegada a Santos

Penetramos entre montanhas que se fechavam atrás de nós.
Não se sabe mais onde está o horizonte
Olha o piloto que sobe uma escada é um mestiço de grandes olhos
Entramos numa baía interna que acaba num desfiladeiro.
À esquerda há uma praia deslumbrante na qual circulam automóveis
à direita a vegetação tropical muda dura cai no mar como um Niágara de clorofila
Quando se passa um pequeno forte português risonho que nem uma capela de um subúrbio de Roma e cujos canhões são como poltronas daquelas que a gente tem vontade de sentar à sombra serpenteia-se uma hora no desfiladeiro cheio de água terrosa
As margens são baixas
A da esquerda plantada de rizóforos e bambus gigantes em torno de casebres vermelhos e negros ou azuis e negros dos negros
A da direita desolada pantanosa cheia de palmeiras espinhosas
O sol é atordoante


A bombordo

O porto
Nem um ruído de máquina, nenhum apito nenhuma sirene
Nada se move não se vê nenhum homem
Nenhuma fumaça sobe nenhum penacho de vapor
Insolação de um porto inteiro
Se há sol cruel e o calor que cai do céu e que sobre da água o calor deslumbrante
Nada se move
Contudo ali está uma cidade ativa uma indústria
Vinte e cinco cargueiros pertencentes a dez nações estão no cais e carregam café
Duzentos guindastes trabalham silenciosamente
(Com o binóculo se distinguem as sacas de café que viajam nos passeios rolantes e os monta-cargas contínuos
A cidade está escondida atrás dos hangars planos e dos grandes armazéns retilíneos de teto ondulado)
Nada se move
Esperamos horas
Ninguém aparece
Nenhuma barca se destaca da margem
Nosso navio parece derreter de minuto a minuto e submergir lentamente no calor espesso de se empenar e de ir mesmo a pique


Praia do Guarujá

São quatorze horas estamos enfim no cais
Descobri um pacote de homens à sombra na sombra amontoada de um guindaste
Certificados médicos passaporte alfândega
Desembarco
Não estou sentado no automóvel que me leva mas no calor mole espesso acolchoado como uma carruagem
Meus amigos que me esperam desde as sete horas da manhã no cais ensolarado têm apenas a força de me apertar a mão
Toda a cidade ressoa com os jovens claxons que se saúdam
Jovens claxons que nos reanimam
Jovens claxons que nos são fome
Jovens claxons que nos levam para almoçar na praia do Guarujá
Num restaurante cheio de aparelhos papa-níqueis elétricos pássaros mecânicos aparelhos mecânicos que leem as linhas das mãos gramofones que tiram a sua sorte e onde se come a boa velha cozinha brasileira saborosa com toda a pimentada indígena


Paisagem

A terra é vermelha
O céu é azul
A vegetação é de um verde escuro
Essa paisagem é cruel dura triste não obstante a variedade infinita de formas vegetativas
Não obstante a graça inclinada das palmeiras e os ramos fabulosos das grandes árvores em flores flores de quaresma.


Paranapiacaba

Paranapiacaba é a Serra do Mar
Aqui é que o trem é levantado pelos cabos e transpõe a dura montanha em várias secções
Todas as estações são suspensas no vácuo
Há muitas quedas de água e grandes trabalhos de arte foram necessários para escorar em toda a parte a montanha que se pulveriza
Porque a Serra é uma montanha podre como “les Rognes” sobre Bionnasay, mas les Rognes cobertos de florestas tropicais
As ervas más que crescem nos declives, nas valas entre os caminhos são sempre plantas raras como não se vê em Paris a não ser nas vitrinas das grandes horticulturas
Numa estação, três mulatos indolentes estavam estragando as plantas.


Bananal

Damos ainda uma volta de carro antes de tomar o trem
Atravessamos bananais empoeirados
Matadouros fétidos
Um subúrbio miserável e uma brenha florescente
Depois desfilamos por uma montanha de terra vermelha e azul negro casas de madeira construídas sobre jazigos abandonados.
Duas cabras anãs pastam as plantas raras que crescem à beira da estrada duas cabras anãs e um porquinho azul.


São Paulo Railway Co.

O rápido está sob pressão
Nós nos instalamos num Pullman pompeiano semelhante aos confortáveis vagões de das estradas de ferro egípcias
Estamos em redor de uma mesa de bridge em amplas poltronas de vime
Há um bar lá no fim do vagão onde bebo o primeiro café de Santos
No início cruzamos com um comboio de carros brancos que tinham esta inscrição:
Caloric Cy.
Está falando.
Sufoco.


Piratininga

Quando se transpõe a crista da Serra e quando se sai da neblina que a encapota o local fica menos desigual
Acaba não sendo mais do que uma vasta planície ondulada limitada ao norte por montanhas azuis.
A terra é vermelha
Essa planície mostra bosquezinhos de pouca altura de uma extensão também pouco considerável próximos uns dos outros em meio de uma relva quase rasa
É difícil determinar se há mais terras cobertas de bosque do que pastos
Fica uma espécie de marchetaria de dois matizes de verde bem diferentes e bem distintos
A da erva de uma cor terna
A do bosque de uma cor escura.


São Paulo

Enfim eis usinas um subúrbio um gentil bondinho
Fios elétricos
Um rua populosa com gente que vai fazer as suas compras da tarde
Um gasômetro
Enfim se chega na estação
São Paulo
Penso estar na estação de Nice
Ou desembarcar em Charring-Cross em Londres
Encontro todos meus amigos
Bom dia
Sou eu.