terça-feira, 8 de setembro de 2015

Dois poemas de Rudyard Kipling



SE 

Se não perdes a cabeça e o tempo é tal 
Que a loucura inflama todos contra ti; 
Ou, caindo no descrédito geral, 
Sem melindres continuas crendo em ti; 
Se consegues sem desânimo esperar, 
Sem rancores com rancores rebater 
Nem mentiras com mentiras rechaçar, 
Sem com isso sábio ou santo querer ser; 

Se liberto da ilusão podes sonhar 
E pensar sem chafurdar no pensamento; 
Se ao sucesso e ao insucesso sabes dar 
Sempre o mesmo indiferente tratamento; 
Se consegues suportar que tuas idéias 
Virem lábia de patifes contra os tolos; 
Ou se a queda de tua obra mal pranteias 
E começas a reerguer os teus tijolos; 

Se consegues apostar tudo que tens, 
Em uma única cartada, e então perder, 
Sem jamais chorar à míngua de teus bens 
Nem diante o recomeço esmorecer; 
Se consegues coração, nervos e músculos 
Empenhar além da força que te assiste, 
Até nada mais restar senão, minúsculos, 
Os apelos da vontade, que persiste; 

Se não perdes entre a plebe a distinção 
E, entre reis, um certo quê de popular; 
Se consegues dar as mãos – co’s pés no chão – 
E inimigos – ou amigos – enfrentar; 
Se, segundo por segundo, os teus minutos 
Dão à volta do ponteiro honesto trilho, 
Tua é a terra inteira e todos os seus frutos 
E, acima de tudo, és um homem, meu filho.



O CONTO DE URIAS 

“Havia em uma cidade dois 
homens; um rico e outro pobre.”

JACK BARRETT foi a Qüetta
A rufo de tambor. 
Com três partes do soldo 
Em Shimla deixou Lenore. 
Tombou tão pronto em Qüetta, 
Que nem viu de outubro a cor. 
Jack Barrett foi a Qüetta, 
Sem justa explicação, 
Estranha transferência 
No mais belo da estação. 
Partiu era setembro, 
E morreu de supetão. 

Jack Barrett foi a Qüetta, 
E lá se despediu, 
Lutando por dois homens 
No “bom posto” que assumiu. 
Lenore vestiu-lhe luto, 
Mas penúria nunca viu. 

Jack Barrett hoje em Qüetta 
Inânime se espraia, 
Mas quem apostaria 
Que em espírito não saia 
A perguntar por que 
O arrancaram do Himalaia? 

E quando o 
Toque do Clarim 
Ecoe sobre o Harnai, 
E o Livro Negro da Chacota 
Enfim revele o guai, 
Se a cova que devora a carne 
O espírito propele, 
De quem mandou 
Jack Barrett lá 
Eu não desejo a pele.

* As traduções apresentadas aqui são de Gil Pinheiro e foram copiadas da edição n.5 dos Cadernos de Literatura em Tradução.

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