segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Dois poemas de William Blake



O TIGRE

Tigre, Tigre, viva chama 
Que as florestas da noite inflama. 
Que olho ou mão imortal podia 
Traçar-te a horrível simetria? 

Em que abismo ou céu longe ardeu 
O fogo dos olhos teus? 
Com que asas ousou ele o voo? 
Que mão ousou pegar o fogo? 

Que arte & braço pôde então 
Torcer-te as fibras do coração? 
Quando ele já estava batendo, 
Que mão e que pés horrendos? 

Que cadeia? Que martelo, 
Que fornalha teve o teu cérebro? 
Que bigorna? Que tenaz 
Pegou-lhe os horrores mortais? 

Quando os astros alancearam 
O céu e em pranto o banharam, 
Sorriu ele ao ver seu feito? 
Fez-te quem fez o Cordeiro? 

Tigre, Tigre, viva chama 
Que as florestas da noite inflama, 
Que olho ou imortal mão ousaria 
Traçar-te a horrível simetria? 

* Tradução de José Paulo Paes



O LIMPADOR DE CHAMINÉS

Ao morrer minha mãe, eu era criancinha; 
E meu pai me vendeu quando ainda a língua minha 
Dizia “vale-dor!” De “varredor” não fujo, 
Pois limpo chaminés, e sigo sempre sujo. 

Chorou Tom Dacre ao lhe rasparem o cabelo, 
Cacheado como um cordeirinho. E eu disse ao vê-lo: 
“Não chores, Tom! Porque a fuligem não mais deve 
Manchar, como antes, teu cabelo cor de neve.” 

E ele ficou quietinho; e nessa noite, então, 
Enquanto ele dormia, teve uma visão: 
Viu Dick, Joe, Ned e Jack, - e mil colegas mais, - 
Encerrados em negros caixões funerais. 

E um anjo apareceu, com chave refulgente, 
E abriu os seus caixões, soltando-os novamente; 
E correm na verdura, a rir, para o arrebol, 
E se banham num rio e reluzem ao sol. 

Brancos e nus, sem mais sacolas e instrumentos, 
Eis que sobem as nuvens, brincam sobre os ventos; 
E esse anjo disse a Tom que, se ele for bonzinho, 
Terá Deus como pai, e todo o seu carinho. 

E assim Tom despertou; e, antes do sol raiar, 
Com sacolas e escovas fomos trabalhar. 
Feliz, Tom nem sentia o frio matinal; 
Quem cumpre o seu dever não teme nenhum mal.

* Tradução de Paulo Vizioli

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