sábado, 18 de junho de 2016

Cinco poemas de Mikhail Liérmontov



"ADEUS, Ó RÚSSIA MAL LAVADA..."

Adeus, ó Rússia mal lavada,
terra de escravo e grão-senhor,
adeus, ubíquo azul de farda
e gente afeita ao seu feitor.

Talvez o Cáucaso, alto muro,
me oculte enfim de teus paxás,
cujo olhar vê tudo no escuro
e cujo ouvido ouve até mais.


UMA VELA

Uma vela, no azul da bruma
do mar, branqueja solitária.
Que busca ao longe? Aonde ruma?
Do que, zarpando, se separa?

Brincam as ondas e murmura
o vento; o mastro verga e chia.
Persegue o quê? Não é ventura.
Foge do quê? Não da alegria.

Torrente mais que anil a enleia,
enquanto o sol de ouro a acalenta.
Rebelde, porém, ela anseia
somente a paz que há na tormenta.


"BYRON NÃO SOU..."

Byron não sou, mas outro eleito
desconhecido ainda e, embora
também eu vague mundo afora
proscrito, sou russo em meu peito.

Parti mais cedo e vou chegar
mais cedo ao fim, quase sem obra;
minha alma encobre feito um mar
cada esperança que soçobra.

Quem pode, mar sombrio e mudo,
saber de teu segredo – e, além
do mais, contar aos outros tudo
o que remoo? Eu? Deus? Ninguém!


A TAÇA DA VIDA

Bebemos vendados da taça
da vida enquanto
lavamos seu ouro sem jaça
com nosso pranto.

A venda desfaz-se, porém,
antes da morte,
e o que nos seduzia tem
a mesma sorte,

Vazia, a taça então revela
seu nada insosso:
bebíamos sonho que, nela,
nem era nosso!


UM SONHO

Num vale daguestano eu expirava,
chumbo no peito, inerte, ao meio-dia;
a chaga funda ainda fumegava,
meu sangue gota a gota se esvaía.

Jazia sobre a areia, abandonado,
penhascos me rodeavam, e um sol forte
queimava cada cimo alto e dourado,
bem como a mim, num sono já de morte.

Sonhava que na terra onde nascera
caía a noite e havia num festim,
com flores no cabelo e de maneira
jovial, moças falando sobre mim.

Mas, longe da alegria e da conversa,
sentava-se uma delas de ar tristonho
e a sua jovem alma estava imersa
na mágoa só Deus sabe de que sonho.

Num vale daguestano, ela sonhava
que, inerte, um corpo familiar jazia,
sua chaga enegrecera e ele sangrava
numa torrente cada vez mais fria.

* Traduções de Boris Schnaiderman publicadas na Folha de São Paulo.


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