segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Dois poemas de Adrienne Rich



OS TIGRES DA TIA JENNIFER

Habitantes de um mundo verde vestidos de topázio,
Curveteiam sobre a tela os tigres da Tia Jennifer,
Não temem os homens por debaixo das árvores;
Movem-se seguros e lustrosos como cavaleiros.

Esvoaçando por entre as lãs os dedos da Tia Jennifer
Acham até difícil puxar a agulha de marfim.
O volume maciço da aliança de casamento do Tio
Carrega pesadamente na mão da Tia Jennifer.

Quanto ela estiver morta, as mãos aterradas da Tia Jennifer
Ostentarão ainda os anéis das provações que a dominaram.
Os tigres que ela fez em cima daquela tela
Continuarão a curvear, altivos e destemidos.


A CHUVA DE SANGUE

Nas pedras quentes da vida naquele ano de breu,
Uma chuva irada, de sangue vermelha, choveu.
Sob as arremetidas daquela aridez molhada
Jardim algum se ergueu, ou cresceu haste tombada,
Como de um céu sem sol todo o dia choveu
E os homens voltavam das ruas de terror
Todos manchados daquele desnatural icor.
Sob a noite os amantes irritados não apagavam
A luz, mas por sobre o seu respirar escutavam
O som que ouve na morte quem está para morrer.
Cada um perguntava, e ninguém ousava dizer
Que ominoso sinal naquela torrente de fogo caía.
E jazíamos toda a noite, enquanto em cima chovia
Forte a chuva de pingos como se sangrasse o céu;
E cada madrugada despertávamos para aquele escarcéu
E os homens sabiam que podiam estancar a ferida,
Mas todos amaldiçoavam a cidade acometida,
Os telhados culpados pela chuva fustigados.


* Tradução de Maria Irene Ramalho e Monica Varese Andrade


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