segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Três poemas de Giuseppe Ungaretti



TÉDIO

Também esta noite passará

Esta solidão em torno
sombra titubeante de fios viários
sobre o úmido asfalto

Olho como os cocheiros
a meio-sono
cabeceiam

*

Sou uma criatura
Como esta pedra
de São Miguel
tão fria
tão dura
tão ressecada
tão refratária
tão totalmente
exânime

Como esta pedra
é o meu pranto
que não se vê

A morte
desconta-se
vivendo

Atrito
Com minha fome de lobo
amaino
meu corpo de cordeiro

Sou como
a barca ínfima
e o libidinoso oceano


JUNHO 

Quando
me morresse
esta noite
e feito um outro
pudesse olhá-la
e adormecer-me
ao rugitar
das ondas
afinal
enoveladas
à cerca de acácias
de minha casa

Quando me despertar
no teu corpo
que se modula
feito voz de rouxinol

Se extenua
como a cor
reluzente
do grão maduro

Na transparência
da água
o ouro velino
da tua pele
se brunirá de mouro

Librada
pelos ladrilhos
estrídulos
do ar serás
como pantera

Ao talho
móvel
da sombra
te esfolharás

Rugindo
emudecida na
poeira
me sufocarás

Depois
entreabrirás as pálpebras

Veremos nosso amor reclinar-se
feito o entardecer

Depois verei
sereno
no horizonte de betume
de tuas íris morrerem-me
as pupilas

Agora
o ar sereno se clausura
assim como
na minha terra da Africa
os jasmins

Perdi о sono

Oscilo
num canto da rua
qual lucíola

Me Morrerá
esta noite?

Giuseppe Ungaretti nasceu no Egito no dia 8 de fevereiro de 1888; o pai trabalhava na construção do canal de Suez e por isso toda família havia se mudado para aquele país. Fez parte dos estudos na Sorbonne de Paris, onde colaborou na revista Lacerba. Voltou à Itália em 1914 e se engajou voluntariamente como soldado na Primeira Guerra Mundial. Combateu em Trieste, numa das frentes mais duras do conflito, e depois na França. Sua primeira obra foi publicada em 1916 – era uma antologia de poemas intitulada Il porto sepolto; a poesia de então refletia sobra suas experiências no front. Em 1919 publica Allegria di naufragi, que foi uma reviravolta em relação à obra de estreia. Colaborou assiduamente com revistas e trabalho com professor de línguas; seu primeiro emprego fixo foi no Brasil, onde viveu entre 1936 e 1942 e deu aulas de Literatura Italiana na Universidade de São Paulo. São obras suas, dentre outras, Setimento del tempo (1933), Il dolore (1947), La terra promessa (1950) e Il taccuino del vecchio (1960).

* Tradução de Haroldo de Campos.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Dois poemas de Natércia Freire



REGRESSO

Quem é? Quem vem?
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados. 
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem!  Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.

Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas. 
Música longa... Um sino a palpitar. 
Calçadas e calçadas...

Presépios com pastores de palmo e meio. 
Velas que são faróis... Cresceu a bruma. 
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.

— Olhem quem vem!  Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!

— Vou com ele, não volto, minha Mãe!

Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê?  Oceanos azulados...
Medo de quê?  Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.

Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!

As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...

Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou  ...

— Vou com ele, não volto, minha Mãe!


NADA TIVE QUE ERA MEU

Nada tive que era meu. 
Perdi estradas, perdi leito. 
Na pedra aonde me deito
Nada fala de alvos linhos. 
Se com cegos me aventuro,
a caminho rente aos muros,
é que meus olhos impuros
sonham Cristos nos caminhos.

Nada tive que era meu
e o corpo não quero eu. 
Podia servir de embalo,
mas serve de sepultura.

Cemitério de asas finas,
tange e plange aladas crinas,
canto de praias sulinas
de infinitas amarguras...

Natércia Freire nasceu em 1920 em Benavente e ainda criança foi com a família viver em Lisboa. Desde cedo se dedicou à música e à poesia. Concluiu o Liceu em 1932 e dois mais tarde se envolve com José Isidro dos Santos com quem se casa. Estreia sua obra poética em 1935 com o livro Castelos de sonho; depois publica Meu caminho de luz (1939), trabalho cuja recepção pela crítica e pelos leitores foi calorosa. No início da década de 1940 inicia colaboração com a Emissora Nacional como palestrante; neste mesmo período publicou Estátua (1941) e Horizonte fechado (1942). O título seguinte, Rio infindável (1947) rendeu-lhe o prêmio Antero de Quental. Desde então as premiações passaram a ser recorrentes. Na década seguinte, enquanto coordenadora da página “Artes e Letras” do Diário de Notícias, onde ficou até 1974, venceu o prêmio Ricardo Malheiros com Infância de que nasci (1955) e em 1971, por Os intrusos, o prêmio Nacional de Poesia. Morreu no dia 17 de dezembro de 2004 em Lisboa. 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Dois poemas de Umberto Saba



ULISSES

Na minha juventude naveguei
ao longo das costas da Dalmácia. Ilhéus
à flor das ondas emergiam, onde raro
uma ave buscava a sua presa,
cobertos de algas, escorregadios, ao sol
belos como esmeraldas. Quando a noite
e a maré alta os ocultavam, as velas
sob o vento o largo demandavam,
para fugir da cilada. Hoje o meu reino
é essa terra de ninguém. No porto
acendem-se as luzes para outros; a mim para o alto mar
me leva ainda o não domado espírito,
e da vida o doloroso amor.


MELRO

Existia aquele mundo ao qual em sonhos
regresso ainda; que em sonhos me abala?
Claro que existia. E uma boa parte dele eram
minha mãe e um melro.

A ela mal a vejo. Mais o negro ressalta
e o amarelo de quem ledo me saudava
com seu canto (era isto o que pensava)
a mim que o ouvia da rua. Minha mãe
sentava-se, estafada, na cozinha. Cortava
só para ele (era isto o que pensava)
e para o meu jantar a carne. Nada
que visse ou que ouvisse tanto o excitava.

Entre uma criança engaiolada e um insectívoro,
que os pequenos vermes arrancava à sua mão,
naquela casa, nesse mundo de então,
havia um amor. Havia também um equívoco.

* Tradução de José Manuel de Vasconcelos


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Edição n.14 da Revista 7faces está online



Mário Peixoto (1908-1992) foi ligado, pela amizade ou pela criatividade, a nomes  como Clarice Lispector e Lúcio Cardoso, entre outros; autor de um livro elogiado por Jorge Amado e Manuel Bandeira que revolucionou o romance brasileiro, O inútil de cada um – obra que até agora os leitores só conhecem o primeiro de um todo de seis volumes e este único título ainda há muito fora de circulação no mercado editorial. Igualmente exímio poeta, elogiado por Mário de Andrade como um autêntico modernista. Mas, pouco lembrado por sua literatura.

Sobre Mário Peixoto sempre se recorda quando o assunto é o cinema. Foi o realizador de um filme elogiado por nomes como Orson Welles e peça de culto da cinematografia brasileira. Limite, tal como sua prosa e sua poesia, é uma obra desconcertante em todos os aspectos.

Todas as facetas do artista são exploradas por estudiosos de sua obra na edição 14 da Revista 7faces; além de fotografias, reproduções de poemas, manuscritos, inéditos, falam sobre o trabalho artístico literário de Mário Peixoto, Geraldo Blay Roizman, Ciro Inácio Marcondes, Saulo Pereira de Mello, Roberta Gnattali e Joel Pizzini. 

Apresentada durante os dias 13 e 14 de novembro de 2017 no evento Mário Peixoto. A poesia que reside nas coisas, a edição organizada por Filippi Fernandes, Cesar Kiraly e Pedro Fernandes traz ainda poemas de José Luís Peixoto,Jonas Leite, Chary Gumeta (poeta mexicana traduzida por Pedro Fernandes), Rodrigo Novaes de Almeida, Lucas Rolim, Gabriel Abilio de Lima Oliveira, Carlos Augusto Pereira, Geovane Otavio Ursulino, Rosa Piccolo, Izabela Sanchez, Orlando Jorge Figueiredo, Diego Ortega dos Santos, Lucas Facó e Felipe Simas.

Acompanha este número, um catálogo com poemas, excertos da prosa e outras imagens do arquivo Mário Peixoto.

Tudo disponível online no site da Revista 7faces.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Encontro celebra a obra de Mário Peixoto

Mário Peixoto. Foto: Arquivo Mário Peixoto


Cineasta. Romancista. Poeta. Todas as facetas do multiartista Mário Peixoto são exploradas por estudiosos de sua obra na edição 14 da Revista 7faces, com sublinhado para sua produção literária. Este número reúne, além de ensaios, material diverso de arquivo e inéditos do autor. Marca desta publicação Mário Peixoto. A poesia que reside nas coisas –  alusivo à memória e à obra do autor. O evento ocorre nos dias 13 e 14 de novembro de 2017, no Centro Cultural IBEU (endereço abaixo). A entrada livre, sujeita a lotação da sala. Você pode confirmar presença para o evento aqui


CENTRO CULTURAL IBEU
Av. N. S. de Copacabana, 690 • 11º andar
Copacabana – Rio de Janeiro
Tel: (21) 3816-9441/9458 • cultural@ibeu.org.br


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Um poema de Hans Magnus Enzensberger



RAZÕES ADICIONAIS PARA OS POETAS MENTIREM

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede.
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais.
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.
* Tradução Kurt Scharf e Armindo Trevisan

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Um poema de Adam Púsloitch



SÓ A MORTE ESTÁ EM TODA A PARTE, COMO UMA ESPÉCIE DE AMOR

Desperto com os olhos.
Desperto com o grito de minha mãe.
Desperto com os dias e com as noites.
Despertam-me no norte, acordo no sul,
Desperto ao esmagar o meu sonho com as mãos.
Nas mãos do pai, sangrento
Desperto com as profundezas, com a treva, com a luz.
Um vidro no monte de lixo reluz.
E eu desperto com isso.
No escuro seio do bosque tomba um tronco
e eu desperto de imediato.
Desperto com milhares de anos brilhantes
E desperto de uma só vez.
Desperto com as mãos cruzadas.
Desperto com os sonhos alheios.
Desperto em segredo diante dos deuses.
Desperto durante os gritos da aurora e durante os ruídos do poente.
Desperto com o Tigre e com o Eufrates.
Desperto com oceano.
E também desperto quando já estou desperto.
Todo o cosmo me desperta.
Só há futuro em estar desperto.
E somente a morte está em toda a parte, como um ramo de amor.


* Tradução e notas de Aleksandar Jovanovic

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Três poemas Georg Heym



BERLIM I

Barris alcatroados rolavam das saídas
de depósitos escuros para os altos batelões.
Os rebocadores puxavam. A bruma da fumaça
caía fuliginosa sobre as ondas oleosas.

Dois vapores, com banda de música, vinham.
Baixaram chaminés sob o arco da ponte.
Havia fumo, fuligem e fedor sobre as vagas
imundas dos curtumes das peles marrons.

Em todas as pontes, sob as quais nos conduzia
a barcaça, ressoavam os sinais,
como um retumbar crescendo no silêncio.

Deixamo-nos levar e entramos no canal
chegando lentamente aos jardins. No idílio
víamos os fanais noturnos de enormes chaminés.


BERLIM II

A margem alta da estrada, onde estávamos,
era branca de poeira. Vimos no estreito
inúmeras pessoas: fluxo de gente e multidão,
e ao longe a metrópole erguer-se na noite.

Cheias charabãs passavam pela massa
pendiam delas bandeiras de papel.
ônibus com capotas e carros.
Automóveis, fumaça e buzinas.

Rumo ao imenso mar de concreto. Mas a oeste
vimos, na longa estrada, árvore ao lado de árvore,
a filigrana das copas sem folhas.

O sol pendia grande no horizonte celestial.
E raios vermelhos abriam o caminho da noite.
E sobre todas as cabeças, um sonho de luz.


* Trad. Marco Aurélio Werle


O DEUS DA CIDADE

Escarrapachado sobre um quarteirão,
À sua volta acampam negros ventos.
Ele olha irado, ao longe, a solidão
De últimas casas em campos nevoentos.

Baal ao pôr do sol, pança luzindo,
À volta ajoelham as grandes cidades.
De um mar de negras torres vem subindo
O eco monstruoso das trindades.

Na rua, a multidão música entoa,
Em dança coribântica exaltada.
Das chaminés fabris o incenso escoa
E sobe até ele, em fragrância azulada.

No seu sobrolho crepitam temporais.
Narcortiza-se em noite o escuro dia.
Como os abutres, esvoaçam vendavais
Em cabeleira irada, que arrepia.

Estende no escuro a mão de carniceiro.
Um mar de fogo varre, num estremecer,
Toda uma rua, que acaba num braseiro,
Até que o dia tarde a amanhecer.

* Trad. João Barrento


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Dois poemas de Aleksandr Blok



FÁBRICA

No prédio há janelas citrinas.
E à noite – quando cai a noite,
Rangem aldravas pensativas,
Homens aproximam-se afoitos.

E os portões fechados, severos;
Do muro – do alto do muro,
Alguém imóvel, alguém negro
Numera os homens sem barulho.

Eu, dos meus cimos, tudo ouço:
Ele os chama, com voz de aço,
Costas curvas, sofrido esforço,
O povo aglomerado embaixo.

Eles hão de entrar à porfia,
Hão de pôr às costas o fardo.
Riso nas janelas citrinas:
Tapearam os pobres-diabos.

1903

* Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman



RAVENA 
Tudo o que é instante, tudo o que é traço
Sepultaste nos séculos, Ravena.
Como uma criança, no regaço
Da eternidade estas, serena.

Sob os portais romanos os escravos
Já não trazem mosaicos pelas vias.
O ouro dos muros arde
Nas basílicas lívidas e frias.

Os arcos dos sarcófagos desfazem,
Sob o beijo do orvalho, as cicatrizes.
Nos mausoléus azinhavrados jazem
Os santos monjes e as imperatrizes.

Todo o sepulcro gela e cala,
Os muros mudos, desde o umbral,
Para não acordar o olhar de Gala,
Negro, a queimar por entre a cal.

Das pegadas de sangue e dor e insídia
O rastro já se apaga e se descora,
Para que a voz gelada de Placídia
Não se recorde das paixões de outrora.

O longo mar retrocedeu, longínquo,
As rodas circundaram as ameias,
Para que os restos de Teodorico
Não sonhem com a vida em suas veias.

Onde eram vinhedos – ruínas.
Gente e casas – tudo é tumba.
Sobre o bronze as letras latinas
Troam nas lajes como trompa.

Apenas, no tranqüilo e atento olhar
Das moças de Ravena, mudamente,
Às vezes uma sombra de pesar
Pelo irrecuperável mar ausente.

À noite, inclinado nas colinas,
Só, pondo os séculos à prova,
Dante – perfil aquilino –
Canta para mim da Vida Nova.

Maio-junho de 1909

* Tradução de Augusto de Campos

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Dois poemas de Marina Tsvetáieva



VERSOS A BLOK 

Na mão – um pássaro que cala,
Teu nome – pedra de gelo na fala.
Um movimento de lábios, só.
Teu nome – quatro sons.
Uma bola em vôo apanhada,
Um guizo na boca, de prata.

Um seixo, atirado num lago calmo,
Soluça assim, como te clamo.
Ao leve tropel do casco noturno
Alto teu nome responde.
E o gatilho a estalar soturno
Lembra-o, em nossa fonte.

Teu nome – ah, não consigo!
Teu nome – um beijo no ouvido.
No gelo morno de pálpebras rígidas,
Da neve é o beijo no mundo.
É um gole de fonte, azul e frigido.
Em teu nome, o sono é profundo.

15 de abril de 1916

* Tradução de  Aurora F. Bernardini


A CARTA

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro – uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera – o fim:
Salva de soldados,
No peito – três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor – floriu.
Quadrado do pátio:
Bocas de fuzil.
(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.
Quadrado da carta.

* Tradução de Augusto de Campos



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Três poemas de Andrei Biéli



CANÇÃO PARA GUITARRA

Eu
Estou nas palavras
Tão morbidamente
Mudo:
Minhas sentenças são
Máscaras.
E –
Falo
A vós todos –
– Falo
Fábulas –,
– Porque –
Assim me foi designado,
A razão –
Não a entendo –
– Porque –
Há tempos tudo se foi no escuro,
Porque – tudo é igual:
Quer eu
Saiba ou não saiba.
Porque só há tédio em toda parte,
Porque a fábula é de esmeralda,
Onde –
Tudo é outro.
Porque há esta avidez dos borrifos
Do prazer;
Porque a difícil
Existência
Para todos
– Tem um só desenlace.
Porque –
– Em suma –,
– Para que
Este inferno?
Porque –
– Para todos
Há um só fim.
E me rompe este riso
Do
Destino
De todos –
– E –
– De
Mim.

(1922)


BURLA

No
Vale
Uma vez
Em sonho

Ante
Vós
Eu, 

Velho
Tolo –,

A
Tocar
Mandolina.

Vós
Ouvíeis
Atento.

E –
– O Antigo Zodíaco.
Um dia
Surraram-me
E
Me
Expulsaram
Do
Circo

Em
Farrapos
E
Em
Sangue,
A clamar –
– Por Deus!
– Deus!
– Deus!

E
Pelo –
– Amor universal.

Vós
Por acaso
Encontrastes
O palhaço
Cantante.

Parastes
Para escutar
O canto.

Vós –
Observastes

O barrete
De bufão.

Vós –
Dissestes
Convicto:
– “Este
É o caminho
Da iniciação...”

Vós –
Em sonho
Mirastes

O –
– Zodíaco.
(1915) 

* Tradução de Augusto de Campos


A PALAVRA

Na febre de som
Do sopro
A trave é flama-fala.

Lá fugindo da laringe,
A terra exala.

Expiram
As almas
Das palavras não-compostas.

Deposita-se a crosta
Dos mundos que nos portam.

Sobre o mundo formado
Paira a profundidade
Das palavras proferíveis.

Profundamente ora
A palavra das palavras, Sarça viva.

E do futuro
Paraíso
Alça-se a serra adunca
Por onde em chamas, consumido,
Não passarei: nunca.

(1917) 

* Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Dois poemas de Tristan Corbière



AVENTURA GALANTE E A VENTURA

                              Odor della feminità.
Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz – um pouco – é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida…

Um belo dia – triste ofício! – eu, assim,
– Ofício!.. – velejava. Ela passou por mim.
– Ela quem? – A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco, toquei-a… – porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E… estendeu-me a mão, e…
                                                        me deu uns tostões.



DESENCORAJOSO

Foi um poeta verdadeiro: Não tinha canto.
Morto: ele amava o dia e desdenhava o pranto.
Pintor: ele não pintava, esquecido que era…
Ele via muito – e ver é uma cegueira.

– Sonhador: habitava o sonho, que se esvai,
Sem ir com ele às nuvens, de onde se cai,
Sem abrir seu personagem e buscar-se dentro.

– Puro herói de romance: ele adorava a loura
Bruma ao sol que amorena, e a lua que nos doura…
Mas não amava nunca – Ele não tinha tempo. –

– Explorador incansável: Remos a remar
Cá embaixo ele via, do alto de seu olhar,
Lasso de piedade pelas boas remadas…

Mineiro das idéias: tocava a fronte espessa,
Para coçar uma espinha ou coçar a cabeça
Em seu trabalho – Fazer nada. –

– Falava: “Sim, a Musa é estéril! é filha
De amor, ociosidade, prostituição;
Não deformem a moça em ventre de família
Que cobre o garanhão para a reprodução!

“Entornem a massa, pedreiros das idéias!
Vocês que, amados por seu capricho insensato,
–Tudo é vaidade! –, quando o dia clareia,
Mostram-na com alarde aos olhos dos beatos!

“Ele acariciava, como se afoga um gato,
E vocês prenderam sua asa ou seu véu,
Orgulhosos de empunhar a pluma do pato,
Ou pó-de-mico, para agitar o pincel!”

– Ele dizia: “Ó florinha! Ingênuo Oceano!
Não creiam que nos faltem pintores e poetas!…
O vidraceiro pinta! e tem por sucedâneo
Um cego que canta raspando a palheta,

Ou um cego que pinta com a clarineta!
–É isso a arte?…”
                                     – Restou-lhe no Sublime Besta
Afogar o orgulho vazio e a virgindade.

* Tradução de Marcos Antônio Siscar

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Um poema de Nikolai Gumilev




O ENCONTRO

Hoje virás até mim.
Hoje enfim compreenderei
por que é tão triste e estranha
a solidão com a lua.

Pálida deterás
e em silêncio te despirás.
Não é assim como a lua
se levanta sobre o espesso bosque?

Enfeitiçado pela lua,
preso a ti,
serei feliz com minha vida,
as trevas e o silêncio.

Assim a besta das selvas tristes
ao sentir a primavera
escuta o sussurro das horas
e ver passar a lua.

Cautelosa se desliza no barranco
a despertar os sonhos da noite
e seu passo ágil se desenvolve
com os passos da lua.

Como ela quero calar-me,
olhar e prostrar,
guardando solene silêncio,
teu silêncio, oh, Noite!

E haverá muitas luas claras
em mim e ao meu redor;
pálida costa de dunas
se abrirá chamando-me.

O mar ver e rumoroso
me trará as trevas
corais, flores e pérolas,
dons de terras distantes.

E o alento de mil seres
desvanecidos há muito tempo,
e o sonho obscuro das coisas mudas,
e o estrelado vinho.

Partirás e escutarei
o último cato da lua
e verei de novo como surge o dia
sobre a calma das dunas pálidas.

* Tradução de Ricardo Paz.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Três poemas de Mark Strand



CONQUISTA DO FILÓSOFO

O melancólico instante persiste,
E o oráculo depois da porta,
Sempre a torre, o barco, o trem distante.
Num lugar ao Sul matam um Duque,
Uma guerra se ganha. Aqui é muito tarde.

O melancólico instante persiste.
Aqui, uma tarde de outono sem chuva,
Num balaio, apenas duas alcachofras;
Sempre a torre, o barco, o trem distante.
Volta a doer a infância nesta cena?
Por que nesse relógio são 1 e 28?

O melancólico instante persiste.
Reino de mor: sua luz verde-amarela
Cai sobre a angústia do destino;
Sempre a torre, o bote, o trem distante.
Quer nossa visão que retenhamos
O peso intolerável destas coisas.

O melancólico instante persiste,
Sempre a torre, o bote, o trem distante.


PRESERVAR INTACTAS AS COISAS

Num campo
sou ausência
de campo.
Sempre
é assim.
Onde quer que esteja
sou o que falta.

Ao caminhar
separo o ar
e o ar
preenche sempre
os vazios
onde meu corpo esteve.

Todos temos razões
para nos mover.
Eu me movo
para preservar intactas as coisas.


MEU FILHO

À maneira de Carlos Drummond de Andrade

Meu filho,
meu único filho,
o que nunca tive,
seria hoje um homem.

Move-se
no vento,
sem nome nem carne.
Às vezes

vem
e apoia a cabeça,
mais leve que o ar,
em meu ombro

e lhe pergunto:
Filho
onde estás?
onde te escondes?

E me responde
com alento frio,
nunca ouviste
quando te chamei

e chamei
e continuei chamando-te
de um lugar
mais além
muito além do amor,
onde tudo
onde nada

quer nascer.

* Traduções de Pedro Fernandes de O. Neto 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Os nomes da edição n.14 da Revista 7faces



O estreito diálogo entre poesia e cinema compõe uma das faces da nova edição da revista cujas primeiras chamadas foram divulgadas em nossa página no Facebook desde há um mês. Essa face é representada pelo nome de Mário Peixoto, cineasta, roteirista e escritor brasileiro que nasceu em Bruxelas (?) em 1908 e morreu em 1992 no Rio de Janeiro. Peixoto é autor de livros como o romance O inútil de cada um, o roteiro Outono: jardim mar, os ensaios Escritos sobre cinema e o livro de poemas Poemas de permeio com o mar.

Este número da Revista 7faces é organizado em parte pelo pesquisador da obra de Mário Peixoto, Filippi Fernandes. A edição incluirá, além de ensaios sobre as várias vertentes criativas de Mário Peixoto escritos por especialistas, poemas de José Luís Peixoto, Jonas Leite, Chary Gumeta (poeta mexicana traduzida por Pedro Fernandes), Rodrigo Novaes de Almeida, Lucas Rolim, Gabriel Abilio de Lima Oliveira, Carlos Augusto Pereira, Geovane Otavio Ursulino, Rosa Piccolo, Izabela Sanchez, Orlando Jorge Figueiredo, Diego Ortega dos Santos, Lucas Facó e Felipe Simas.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Três poemas de Jules Laforgue



MEDIOCRIDADE

No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saudam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o seu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.


LOCUÇÕES DO PIERROT XII

Mais outro livro ; ó nostalgias
Longe de todo este gentio,
Do tal dinheiro e do elogio,
Bem longe das fraseologias!

De novo um dos meus pierrots morto;
Daquele crônico orfelismo,
Coração pleno de dandismo
Lunar em um estranho corpo.

Nossos deuses se vão; sem cura,
Os dias, de mal a pior,
Já fiz o meu tempo. É melhor
Sim, entregar-se à Sinecura!


LAMENTO DA BOA DEFUNTA

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
– Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.

* Tradução Régis Bonvicino

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Três poemas de Juan Manuel Roca



ARENGA DE UM QUE NÃO FOI À GUERRA

Nunca vi nos corrimões de uma ponte
A doce mulher com olho de assíria
Enfiando uma agulha
Como se fosse remendar o rio.
Nem mulheres sozinhas à espera nas aldeias
Que a guerra passe como se fosse outra estação.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Porque desde menino
Sempre perguntei como se ia à guerra
E uma enfermeira bela como um albatroz,
Uma enfermeira que corria por longos corredores
Gritou com grasnido de ave sem olhar para mim:
Já estás nela, rapaz, já estás nela.
Nunca fui ao país dos hangares,
Nunca fui porta-bandeira, hussardo, mujique de alguma estepe.
Nunca viajei de balão por eriçados países
Povoados de tropa e cerveja
Não escrevi como Ungaretti cartas de amor nas trincheiras.
Nunca vi o sol da morte a arder no Japão
Nem vi homens de grande pescoço
A repartir a terra num jogo de cartas.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Para ver a soldadesca a lavar os brancos estandartes
E de seguida a ouvi-los falar da paz
Ao pé da legião das estátuas.


CANÇÃO DO QUE FABRICA ESPELHOS

Fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.
Levo pela rua a lua de azougue:
O céu reflecte-se nos espelhos
E os telhados bailam
Como um quadro de Chagall.
Quando o espelho entrar noutra casa
Apagará os rostos conhecidos,
Porque os espelhos não contam o seu passado,
Não denunciam antigos moradores.
Alguns constroem prisões,
Grades para jaulas.
Eu fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.


POEMA INVADIDO POR ROMANOS

Os romanos eram maliciosos.
Encheram a Europa de ruínas
Conjurados com o tempo.
Interessava-lhes o futuro,
Os traços mais do que as pegadas.
Os romanos, Cassandra, eram manhosos.
Não imaginaram o Aqueduto de Segóvia
Como uma conduta de água e de luz.
Pensaram-no como vestígio,
Como um absorto passado.
Semearam de edifícios musgosos a Europa,
De estátuas acéfalas
Engolidas pela glória de Roma.
Não fizeram o Coliseu
Para que os tigres devorassem
Por capricho seu os cristão,
tão pouco apetecíveis,
Nem para ver trespassados
Como aperitivos do inferno
os exércitos de Espártaco.
Pensaram a sua ruína, uma ruína proporcional
à sombra mordida pelo sol que agoniza.
O meu amigo Dino Campana
Poderia ter saltado à jugular
De um dos seus deuses de mármore.
Os romanos dão muito em que pensar.
Por exemplo,
Num cavalo de bronze
da Piazza Bianca.
No momento de o restaurar,
Ao assomarem à boca aberta,
Encontraram no ventre
esqueletos de pombas.
Como o teu amor,
Que se torna ruína
Quando mais o construo.
O tempo é romano.

* Tradução de Nuno Júdice


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Quatro poemas de Joan Margarit



CASA DA MISERICÓRDIA

O pai fuzilado.
Ou, como diz o juiz, executado.
A mãe, a miséria e a fome,
a instância que alguém lhe escreve à máquina:
Saludo al vencedor, Segundo Año Triunfal,
Solicito a Vuecencia deixar os filhos
nesta Casa da Misericórdia.
O frio do seu amanhã está numa instância.
Os orfanatos e hospícios eram duros,
mas ainda mais dura era a intempérie.
A verdadeira caridade dá medo.
É como a poesia: um bom poema,
por mais belo que seja, tem de ser cruel.
Não há mais nada. A poesia é agora
a última casa da misericórdia.


SATURNO

Rasgaste os meus livros de poemas
e deitaste-os para a rua pela janela.
As folhas, como estranhas borboletas,
iam pairando por cima das pessoas.
Não sei se agora nos entenderíamos,
dois homens velhos, cansados e desiludidos.
De certeza que não. Deixemo-lo assim.
Tu querias devorar-me. Eu, matar-te.
Eu, o filho que tiveste durante a guerra.


VOZES DE CRIANÇAS

O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
é uma teia de luz cansada
onde recordo quando iam dormir.
Ainda lhes leio naquele quarto,
debaixo da lâmpada ao lado da cama,
os contos com capas duras de cores brilhantes.
De súbito, em alguma madrugada,
ouço uma criança que me chama e incorporo-me,
mas não há ninguém, só um velho
que ouviu o rumor da memória,
um leve fragor de ar na escuridão
como se uma bala atravessasse a casa.
Ao apagar a luz guardava um tesouro.


O SAPATEIRO

Costumávamos jogar ali à bola.
A praça da igreja erguia-se
uns dois metros acima de umas pequenas hortas
que estavam ao lado de um sapateiro.
Quando a bola caía, algum dos nossos
tinha de ir rápido dependurando-se.
Se o sapateiro chegava lá antes,
cortava-a com o seu cutelo.
Não sei que pescoço cortava na bola
de borracha daquelas crianças. Dava-me medo.
Um medo que já não era o mesmo
que o dos contos ou do quarto escuro.
Era um medo mais duro. Mais real.
Como quando tu estavas com outro,
ou quando morreu a nossa filha.

* Traduções Rita Custódio e Àlex Tarradellas

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Três poemas de Michael Hartnett



A ÚLTIMA VISÃO DE EOGHAN RUA Ó SÚILLEABHÁIN 

A vaca da manhã jorrou
névoa-leite em cada vale
e o ruído de pés veio
dos lados alvos das colinas.
Vi como fantasmas
meus companheiros
e em vez das costumeiras pás
tinham rosas em suas espáduas.

*

Eu digo adeus ao verso inglês,
que achei, por certo, em rede inglesa:
meu Lorca estendendo seus braços
a fim de amar a beleza das balas,
Pasternak, que sobreviveu a Stálin
e morreu devido a menores bestas;
a todos os poetas que amei,
de Wyatt a Robert Browning;
ao Padre Hopkins na tumba sempre cheia
de gente, e ao nosso bicho-papão Yeats,
que nos impôs o exílio

em ilhas de maus versos.

Entre os meus amigos vivos
não há poeta que eu não ame,
ainda que alguns escrevam
com seus corações tão acres;
eles são uma arte, nossas muitas artes.

Poetas que prosseguem
não fazem paz nem pacto.
O ato da poesia
É rebelde de fato

*

Não é nova esta estrada,
nem coisas novas eu forjo.
Não pode ser retirada
das mentes aspirador-de-pó
a ideia de servir a reis mortos.

Não sou novo em nada.
Nem uma boca só eu sou
tentando ver se cava
um nicho para a cultura
no clero-conturbado sul.

Mas não verei, calado,
a queda dos grandes:
os que andam em trapos
pelas cidades, errantes
tendo no inglês um preciso pecado,
língua pra vender porcos no mercado.

Fiz minha escolha e parto
com mínimo choro.
Vim com minha voz parca
cortejar a língua do meu povo

* Traduções de Marcelo Tápia

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Um poema de Brendan Kennelly



PROVA 

Queria que tudo fosse livre de mim, 
Nunca matar os dias com suposições, 
Nunca sentir que eles sofrem imposições 
De serem isto e não aquilo. 
É fácil, sim, Mutilar o momento, aleijá-lo 
Com expectativas, forçá-lo a definir-se 
A si mesmo. Além de tudo que sou, o sol 
Espalha seus raios como se por acaso. 

A raposa come o próprio pé na armadilha 
Para livrar-se. Enquanto manca pela relva, 
É a terra que parece sangrar. 
Quando chega, então, a luz do dia, 
Quem sabe da dor que a noite leva? 
De prova é que não vou precisar.

* Tradução de Marcelo Tápia

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Um poema de Mario Vargas Llosa



POEMA PARA A EXORCISTA

A minha vida aparece sem condão e
monótona
aos que me vêem
no trabalho árduo da oficina
em manhãs apuradas.
A verdade é muito distinta.
Cada noite eu saio e discuto
contra um espírito malévolo
que, se valendo de
máscaras - cão, grilo,
nuvem, chuva, vagabundo,
ladrão - trata de
se infiltrar na cidade
para estragar a vida humana
semeando
a discórdia.
Apesar dos seus disfarces
sempre a descubro
e a espanto.
Nunca conseguiu enganar-me
nem vencer-me.
Graças a mim, nesta cidade
ainda é possível
a felicidade.
Mas os combates nocturnos
deixam-me exausta e ferida.
E para compensar a minha
guerra contra o inimigo,
peço uns restos
de afecto e de amizade.

Nova York, novembro de 2001


* Tradução de Pedro Calouste

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Dois poemas de Adam Zagajewski



ARCO-ÍRIS

Retornei à Rua Longa com seu negro
halo de poluição incrustada – e à Rua Karmelicka
onde bêbados de faces azuis esperam
o fim do mundo em delirium tremens
feito os anacoretas de Antioquia, e onde
bondes tremem pelo excesso de tempo,
e à minha juventude, que não quis
esperar e não sobreviveu, vítima de longos
afogos e estritas vigílias, voltei a
ruelas sombrias e aos sebos,
a conspirações capazes de ocultar
afetos e traições, à preguiça,
aos livros, ao tédio, ao esquecimento, ao chá,
à morte, que levou tantos
e não devolveu ninguém,
a Kazimierz, bairro vacante,
vazio mesmo de lamentação,
a uma cidade de chuva, ratos e lixo,
à infância, que se evaporou
como uma poça brilhante com um arco-íris de gasolina,
à universidade, que ainda tenta desairosamente
seduzir uma nova geração de ingênuos,
a uma cidade que agora vende
até os próprios muros, desde que vendeu
sua fidelidade e honra há tanto tempo, a uma cidade
a que amo desconfiadamente
e a qual nada posso oferecer
senão o que já esqueci e o que me lembro
senão um poema, senão a vida.


A PROFESSORA DE DICÇÃO SE APOSENTA DA ESCOLA DE TEATRO

Alta, tímida, digna
de uma maneira antiquada,
Ela dá adeus aos estudantes, à faculdade,
e olha ao redor com suspeição.
Ela tem certeza de que eles mutilarão a língua mãe
impiedosa e impunemente.
Ela apanha o certificado (verificará
os erros depois). Dá meia-volta e desaparece na coxia,
nas sombras aveludadas dos holofotes,
em silêncio.
Ficamos sozinhos
a retorcer línguas e lábios.

* Traduções de Pedro Gonzaga


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Três poemas de Lila Ripoll



VIM AO MUNDO EM AGOSTO

Sou triste de nascença e sem remédio.
Vim ao mundo no triste mês de agosto
o mês fatal das chuvas e do tédio,
e nasci quando o sol estava posto.

Vim ao mundo chorando... (o meu presságio!)
Um vento mau marcava na vidraça
o plangente compasso de um adágio,
anunciando agoirento uma desgraça.

Sou triste. É irremediável este mal.
E eu não quero curar minha tristeza.
Só ela para mim tem sido leal,
Na minha via-sacra de incerteza.

Sou triste de nascença. É mal sem cura.
A vida não desfez meu nascimento.
Sou a menina triste e sem ventura,
que em agosto nasceu, com chuva e vento.

RETRATO

Chego junto do espelho. Olho meu rosto.
Retrato de uma moça sem beleza.
Dois grandes olhos tristes como agosto,
olhando para tudo com tristeza!

Pequeno rosto oval. Lábios fechados
para não revelar o meu segredo...
Os cabelos mostrando, sem cuidados,
Uns fios brancos que chegaram cedo.

A longa testa aberta, pensativa.
No meio um traço, leve, vertical,
indicando uma ideia muito viva
e os sérios pensamentos: — o meu mal!...

O corpo bem magrinho e pequenino.
— Sete palmos de altura, com certeza. —
Tamanho de qualquer guri menino
que a idade, a gente fica na incerteza!

E nada mais. A alma? Ninguém vê.
O coração? Coitado! está bem doente.
Não ama. Não odeia. Já não crê...
E a tudo vive alheio, indiferente!...

Meu retrato. Eis aí: Bem igualzinho.
O espelho é meu amigo. Nunca mente.
No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.
E sabe desde quando estou descrente!...


CANÇÃO DE AGORA

Ontem meu peito chorava.
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.

Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.

Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.

Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.

Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.