sábado, 13 de novembro de 2010

Eu nunca fui dos que a um sexo o outro


Eu nunca fui dos que a um sexo o outro
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual amo, como a ave pousa
     Onde pode pousar.

Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa
Pondo querer pousar antes do ramo;
Corre o rio onde encontra o seu retiro
     E não onde é preciso.

Assim das diferenças me separo
E onde amo, porque o amo ou nenhum amo,
Nem a inocência inata de quem ama
Julgo postergada nisto.

Não no objecto, no modo está o amor,
Logo que a ame, a qualquer coisa amo.
Meu amor nela não reside, mas
     Em meu amor.

Os deuses que nos deram este rumo
Do amor a que chamamos a beleza
Não na mulher só a puseram; nem
     No fruto apenas.






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REIS, Ricardo. Poesia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000.

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