segunda-feira, 22 de julho de 2019

Um poema de Roberto Fernández Retamar





O OUTRO
  
Nós, os sobreviventes,
A quem devemos a sobrevida?
Quem morreu por mim na masmorra,
Quem recebeu a minha bala,
A que era para mim em seu coração?
Sobre qual morto eu estou vivo,
Seus ossos jazem nos meus,
Os olhos que lhe arrancaram, vendo
Pelo olhar de minha cara,
E a mão que não é sua mão,
Que também já não é a minha,
Escrevendo palavras rotas
Onde ele não está, na sobrevida?

(1 de janeiro de 1959)

Roberto Fernández Retamar nasceu a 9 de junho de 1930. Doutor em Ciências Filológicas exerceu a função de professor na Universidade de Havana e passou por instituições como a Universidade de Yale, Universidade de São Marcos entre outras. Colaborou coma a revista Alba, Orígenes e Nueva Revista Cubana; fundou junto com Nicolás Guillén, Alejo Carpentier e José Rodríguez Feo a revista Unión. Dirigiu desde 1986 até o ano de sua morte a Casa de las Américas. Autor de vasta obra poética e ensaística, Retamar morreu em 21 de julho de 2019.

* Tradução de Alai Garcia Diniz, Luizete Guimarães Barros.


segunda-feira, 24 de junho de 2019

Três poemas de Salvatore Quasimodo



TERRA

Noite, serenas sombras,
berço de ar,
chega-me o vento se por ti divago,
com ele o mar cheiros da terra
onde canta na praia minha gente
às velas, às nassas,
às crianças antes da aurora despertadas.

Montes secos, planícies de relva nova
que espera manadas e greges,
tenho dentro o vosso mal que me escava.


ESPELHO

E eis que do tronco 
rompem-se os brotos: 
um verde mais novo da relva 
que o coração acalma: 
o tronco parecia já morto, 
vergado no barranco.

E tudo me sabe a milagre; 
e eu sou aquela água de nuvens 
que hoje reflete nas poças 
mais azul seu pedaço de céu, 
aquele verde que se racha da casca 
e que tampouco ontem à noite existia.


SEM MEMÓRIA DE MORTE

A primavera desperta árvores e rios;
a voz profunda não ouço,
em ti perdido, amada.

Sem memória de morte,
unidos na carne,
as trombetas do último dia
nos despertam adolescentes.

Ninguém nos ouve:
o leve respirar do sangue!

Feita ramo
floresce em teu flanco
a minha mão.

De plantas pedras águas
nascem os animais
ao sopro do ar.

Salvatore Quasimodo nasceu em Módica, pequena cidade próximo de Siracusa, na Sicília, em 20 de agosto de 1901. Formado em Matemática e Engenharia, o ofício de poeta sempre foi exercido durante a primeira década nas horas vagas. Quando abandona a carreira de funcionário público constitui melhor aproximação com a poesia – passa a ser professor de literatura italiana em Milão. Integrou a Letteratura, revista oficial do movimento hermético – derivação do estilo nascido com o simbolismo francês e representado por nomes como Mallarmé e Valéry – do qual, em Itália, participaram nomes como Eugenio Montale de Giuseppe Ungaretti. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura 1959. Quasimodo morreu em 14 de junho de 1968 em Nápoles.

* Traduções de Geraldo Holanda Cavalcanti.


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Três poemas de Primo Levi




O CANTO DO CORVO (I)

"Eu cheguei de muito longe
Para trazer a má notícia.
Passei por cima da montanha,
Atravessei a nuvem baixa,
Espalhei no pântano meu ventre.
Voei sem descanso,
Por cem milhas sem descanso,
Para encontrar seu ouvido,
Para trazer-lhe a terrível nova
Que lhe tire a alegria do sono,
Que lhe corrompa o pão e o vinho,
Que se assente à noite em seu coração.
      Assim cantava torpe dançando,
      Atrás da vidraça, sobre a neve.
      Ao se calar, olhou maligno,
      Riscou com o bico o solo em cruz
      E estendeu as asas negras.

9 de janeiro de 1946


SHEMÀ

Vós que viveis seguros
Em vossas casas aquecidas
Vós que achais voltando à noite
Comida quete e rostos amigos:

      Considerai se isto é um homem
      Que trabalha na lama
      Que não conhece paz
      Que luta por um naco de pão
      Que morre por um sim ou por um não.
      Considerai se isto é uma mulher,
      Sem cabelos e sem nome
      Sem mais força de recordar
      Vazios os olhos e frio o ventre
      Como uma rã no inverno.

Meditai que isto aconteceu:
Vos comando estas palavras.
Gravai-as em vossos corações
Estando em casa, caminhando na rua,
Deitando, levantando:
Repeti-las a vossos filhos.
Ou que vossa casa se desfaça,
A doença vos impeça,
Vossa prole desvie o rosto de vós.

10 de janeiro de 1946


PARA ADOLF EICHMANN

Corre livre o vento por nossas planícies,
Eterno pulsa o mar vivo em nossas praias.
O homem semeia a terra, a terra lhe dá flores e frutos:
Vive em ânsia e alegria, espera e teme, procria ternos filhos.

... E você chegou, nosso precioso inimigo,
Você, criatura deserta, homem cercado de morte.
O que saberá dizer agora, diante de nossa assembleia?
Jurará por um deus? Mas que deus?
Saltará contente sobre o túmulo?
Ou se lamentará, como o homem operoso por fim se
     lamenta,
A quem a vida foi breve para tão longa arte,
De sua terrível arte incompleta,
Dos treze milhões que ainda vivem?

Ó filho da morte, não lhe desejamos a morte.
Que você viva tanto quanto ninguém nunca viveu:
Que viva insone cinco milhões de noites,
E que toda noite lhe visite a dor de cada um que viu
Encerrar-se a porta que barrou o caminho de volta,
O breu crescer em torno de si, o ar carregar-se de morte.

20 de julho de 1960



Primo Levi nasceu no dia 31 de julho de 1919 em Turim. Químico e escritor, de família judaico-piemontesa, foi um sobrevivente de Auschwitz. Dessa condição se forjou toda sua obra, marcada por títulos como É isto um homem?, Os afogados e os sobreviventesA tabela periódica e A trégua. Escreveu também poesia, gênero com o qual procedeu sua estreia literária, em junho de 1946. Sua atividade de escrita permaneceu sempre marcada pelo retorno ao verso e no final dos anos 1970 chegou a publicar por conta própria e anonimamente trezentos exemplares que trazia 23 poemas, boa parte deles inéditos. Só uma década depois sua obra poética começa a circular com melhor clareza na Itália. Levi morreu no dia 11 de abril de 1987.

* Traduções de Maurício Santana Dias.