sábado, 8 de dezembro de 2018

Os nomes da edição n. 17 da Revista 7faces



No dia 8 de dezembro de 1894, nasceu em Vila Viçosa, a poeta Florbela Espanca. No mesmo dia, 36 anos depois, em Matosinhos, sabe-se da sua morte. A vida tão breve foi marcada pela intensidade com que experimentou os arroubos por ela oferecidos: os amores e as dores, a criatividade, a dedicação ao literário, tudo foi vivido no máximo grau de expressão. Continuamente, a obra da poeta portuguesa tem sido matéria criativa para todas as gerações futuras desde quando se opera seu reconhecimento, tardio, mas expressivo. 

Em junho de 2019, passam-se os 100 anos da publicação do primeiro livro de Florbela Espanca. Livro de mágoas é singular na bibliografia breve da poeta porque assinala o talento criativo e poético da então jovem que frequenta o curso de Direito em Lisboa. Foram duzentos exemplares, custeados pelo pai, e editados por um amigo, que, apesar de logo vendidos, não significou merecerem a atenção justa da crítica que se apressou em classificar como emulação gratuita de António Nobre. 

Juntando a efeméride, uma maneira de não deixar a memória passar em branco o que não deve ser passado em branco, e inserindo-se entre as atividades criativas que ampliam o universo de Florbela é que a revista 7faces se antecipa na publicação deste número em homenagem à sua obra; não apenas ao livro de 1919, mas aos demais títulos que projetou ou publicou em vida e àqueles que foram conhecidos mais tarde graças a atenção da crítica, que a ver pelo passar dos anos, já se redimiu integralmente do silêncio surdo ou do julgamento taxativo em torno da poeta portuguesa.

O n.17 da revista 7faces chega online por esses dias. É organizada pelo estudioso da obra de Florbela, o professor Jonas Leite, quem reuniu um grupo importantíssimo da crítica brasileira e estrangeira que se desdobra a investigar lugares e elementos diversos da diversa obra da poeta. 

Além disso, foram selecionados para compor esta edição os trabalhos dos poetas Franco Bordino, Lucas Grosso, Augusto de Sousa, Juan Manuel Palomino Domínguez, Carolina Pazos, Tibério Júlio de Albuquerque Bastos, Rebeca Rose dos Santos Leandro, Nathalia Catarina, Alaor Rocha, Paulo Emílio Azevedo e Moira Marques Portugal.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Dois poemas de Orlando Mendes



Não, mas

Não fome nem sede nem cio
nem desejo de aventura
não o grito que percutiu
contra o medo que vos mura

não regras nuvens que adensam
e deslizam para o mar
não chuva implorada bênção
sobre a terra de semear

não a mão febril que deslavra
sofismado túnel da sua
liberdade. Mas a palavra

que se catapulta da rua
e nos sonos profundos lavra
como fogo que não recua.


Manhã

Quando a verde savana
é uma bandeira húmida batida pelo sol
as corolas se abrem lentamente
como tem de ser

esvoaçam cintilantes abelhas
e sugam o néctar essencial
e levam o pólen a outras flores
como tem de ser.

Toca cherila na machamba
e mufana não responde à chamada
três vezes repetida
como tem de ser

parte a descobrir flores abertas
e de corpo envolto na bandeira verde
o rosto agudo irradia luz
e os olhos incendeiam a manhã
porque o sol não queima epidermes da sua cor
como também tem de ser.

Orlando Mendes nasceu em 1916 na Ilha de Moçambique e morreu em Maputo em 1989. Formado em Biologia pela universidade de Coimbra, onde trabalhou como assistente de botânica, foi fitopatologista e atuou no Ministério da Agricultura de Moçambique como pesquisador de medicina tradicional. Escreveu peças para teatro, romance e poesia, o gênero no qual se situa sua obra mais significativa.O livro de estreia foi Trajectórias em 1940, ao que se seguiu Clima (1959), Depois do sétimo dia (1963), Portanto eu vos escrevo (1964), Véspera confiada (1968), Adeus de Gutucumbui (1974), A fome das larvas e País Emerso I (1975) - no ano seguinte publicou a continuidade deste título -, Produção com que aprendo (1978), Lume florindo na forja (1980) e As faces visitadas (1985).



segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Nove poemas de Armindo Trevisan



Primeira opção

Cada homem é levado por si, ou por outrem,
à amargura jubilosa de uma consciência de faca.
Por esta consciência os nós do seu sangue
lhe amadurecem até à hora em que as coisas
lhe caem sobre os olhos, com a velocidade
dos poléns que o sol enfureceu por descuido.


Segunda opção

Cada homem é levado à lucidez da carne,
porque a carne tem o bote harmonioso
das molas, que se enchem de visco e energia,
e impelem o vento na direção inacreditável
das velas atentas às madeiras odoríferas.


Terceira opção

Cada homem é levado a uma noite irreversível,
feita de todos os destroços de suas palavras,
e de todas as alturas de suas adesões.
Nessa noite - ó encanto! ó jardins suspensos! -
é-lhe concedido, pela primeira vez, o assombro
de dar-se um nome, como aos inventos eletrônicos.


Quarta opção

O homem, que é levado, dá-se um nome sem nome,
que só ele saberá, por mais que explique aos amigos
a perfeita lógica do pé que se liquefez,
ou a segurança bravia do tórax onde as buganvílias
cresceram como carícias ruborizadas pelo frio.
Ah! mas é terrível carregar-se consigo a flama,
que só em nossa pele logrará devorar o bosque.


Quinta opção

Mas a paz dos galos que escancaram as manhãs
acompanha a comitiva do que ficou um só.
Homens: escolhei vossos caminhos a cada curva,
dai-lhes de beber o leite de vossos cérebros,
propiciai-lhes o mel de vossas angústias inaugurais.
Há doçura no medo de errar onde não se errou,
e engrandece um erro sabê-lo único.


Sexta opção

Cada homem se leva, por si, ou por outrem,
ao território insensato no qual a morte admite
despir-se de sua indumentária da tábua e do cravo.
Ali é que ela exibe seu sexo ao homem
e o obriga a adorar a Deus na graça do vácuo,
onde o próprio Não sabe a misericórdia.


Sétima opção

Esta misericórdia procede da lâmina polida
que penetra até onde lhe é possível conduzir
o bico longilíneo do murmúrio que o homem
hospeda às avessas, no labirinto do seu rosto.
Contudo: ei-lo ali, este gigante que escolheu.
no meio de outros homens, uma coisa tão sua
que até se arrepende de ter vivido excessivamente.


Oitava opção

Decerto nosso corpo calcula o seu poderio
a partir dos dentes que afia para o ar.
Mas este corpo imediato, que é carne centrífuga,
não se cativa às leis que o fixam aos morangos,
ou à muralha túmida dos acertos memoráveis.
O corpo dos homens é a solução que a alma
amealhou para a hora em que a Eternidade
se impõe a cada criatura como um gemido intransferível.


Nona opção

Ignora-se até onde é levado o homem,
cuja liberdade mordeu uma nuvem de mercúrio.
Que importa? Há que fiar-se dos fios que não têm meada,
e, por não a terem, desprezam as pontas salvadoras.
Vão eles ao encalço do atavismo das flechas,
e, quanto mais distantes, mais contíguos se sentem,
inúteis de si, embora esta contiguidade temerosa
de um ser que não traziam os constranja à loucura
de amarem o que a vida reserva aos indígenas
da profundidade absoluta, que consiste em tentar
só dar a Deus aquilo que, alguma vez, foi do homem.

Armindo Trevisan nasceu em Santa Maria em 1933. Formado em Teologia, concluiu o Doutorado em Filosofia pela Universidade de Fribourg, na Suíça. Atuou com professor de História da Arte e Estética na Universidade do Rio Grande do Sul entre 1973 e 1986. Autor de vasta obra poética. Dessa produção é possível citar A surpresa do ser, o livro de estreia em 1967, Funilaria do ar (1973), O ferreiro harmonioso (1978), A mesa do silêncio (1982), A dança do fogo (1995) e O canto das criaturas (1998).

* Os poemas aqui publicados são os apresentados na revista Colóquio / Letras n.2, jun. de 1971.