terça-feira, 17 de maio de 2022

Três poemas de Miyó Vestrini

 


COISA POUCA NA VERDADE
 
Não é muito o que tenho para te dizer:
                                                   quando falo dele, estremeço.
                                                   Coisa pouca,
 
                                                                  na verdade.
 
 
A DOR  
 
Dobrei as suas camisas com todo o cuidado
e esvaziei a gaveta da mesinha de cabeceira.
Dada a dimensão da minha dor,
li Marguerite Duras,
que avessa e doce
tecia um xaile para o seu amado.
Ao quinto dia,
Abri as cortinas.
A luz caiu sobre a coberta manchada de gordura,
o chão cheio de restos,
a moldura escamada da porta.
Tanta dor,
por coisas tão feias.
Olhei uma vez mais a sua cara de fuinha
e atirei tudo pela conduta do lixo abaixo.
A vizinha,
alarmada com tal volume de lixo,
quis saber se estava tudo bem comigo.
Dói, disse-lhe eu.
Na minha caixa de correio, um bilhete anónimo:
“quem tem um amor
que dele cuide
que dele cuide
e não suje a conduta do lixo da comunidade.”
 
 
A HORA DOS PROSTITUTOS E CÃES NÉSCIOS
 
A esta hora
não se sabe o que fazer

       e é sempre a esta hora, a hora dos prostitutos e cães
       néscios que eu relembro. Todos os dias, este tempo
       perdido, sabes, a cara entre as mãos, as pernas enco-
       lhidas, a viva imagem da dor na tarde lerda. Imóvel
       entre escombros, imune aos desastres, não podia ser
       de outra forma.
 
E é esta mesma hora
                               a de hoje
                                               a que virá todos os dias
que me fode.

 

Miyó Vestrini (Marie-José Fauvelle Ripert) nasceu em Nimes, França a 27 de abril de 1938. Veio com a família ainda criança morar nos Andes venezuelanos, onde passou o resto da sua infância. Ainda jovem passou a se dedicar ao jornalismo cultural e integrou vários grupos de escritores; trabalhou para a imprensa venezuelana na Itália, conduziu programas de rádio, dirigiu cadernos de cultura em jornais como El Nacional e escreveu prosa e poesia, gênero este no qual se destaca como importante nome da literatura de vanguarda em língua espanhola. Miyó suicidou-se a 29 de novembro de 1991, em Caracas. Deixou livros como Las historias de Giovanna (1971), El inverno próximo (1975), Pocas virtudes (1986), Valiente ciudadano (1994) e Es una buena máquina (2014).  
 
* Traduções de Miguel Cardoso.

terça-feira, 26 de abril de 2022

Dois poemas de Margaret Atwood


 

Primavera outra vez, como irei suportar
as agulhas que ela lança contra
a terra, contra a minha cabeça,
habituadas que estamos ambas à escuridão
 
A neve no solo escuro e
a lagarta esmagada
a relva feita líquido colorido
 
O inverno desmorona-se
em pregas frouxas em torno
dos meus pés / folhas ainda ausentes / flácidas
 
Carnudos lilases em botão ameaçam
abrir mas eu
contenho-me
 
Não estou pronta / ajuda-me
o que quero de ti é
luar macio de
vento, longos cabelos de água
 
 
*
Porque tu não estás nunca aqui
mas sempre ali, esqueço-me
não de ti mas da tua aparência
 
Vagueias rua abaixo
à chuva, o teu rosto
dissolve-se, muda de forma, as suas cores
escorrem e misturam-se
 
As minhas paredes absorvem-
-te, respiram-te de
novo, tudo reiniciais-
-te, não te reconheço
 
Ficas deitado na cama
a olhar-me a olhar-
-te, nunca nos haveremos de conhecer
tão bem um ao outro
 
como agora
 
Margaret Atwood nasceu a 18 de novembro de 1939, em Ottawa, Canadá. Reconhecida com romances de natureza distópica, como O conto da aia, sua Magnum opus, é também autora de ensaios, contos e poemas. Deste gênero, publicou mais de uma dezena de livros, entre eles A porta, publicado no Brasil em 2013 com tradução de Adriana Lisboa. Os dois poemas apresentados aqui são de outro livro da autora traduzido em Portugal, Políticas de poder.
 
* Traduções de Ana Luísa Amaral.