segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Os nomes da edição n.15 da Revista 7faces

Foto: Alfredo Cunha 

Quando apresentamos nosso cartão de boas festas no final de 2017 em nossa página no Facebook – e depois repetimos em nosso Twitter –, dissemos que a próxima edição da Revista 7faces sairia com homenagem à obra de Eugénio de Andrade. O poeta português é autor de uma vasta obra que o coloca entre os maiores nomes da poesia de língua portuguesa contemporânea. Reconhecimento que é corroborado pela entrega do Prêmio Camões em 2001.

Reforçamos a notícia e acrescentamos quais são os poetas apresentados neste novo número: Carla Valente, Clara Baccarin, Custódia Pereira, Helena Loza, Joaquim Cardoso Dias, Laryssa Costa, Lucas Repetto, Manuel Pintor, Sandra Fonseca Matias, Susana Canais, Alberto Arecchi, Carla Carbatti, Marcelo Grisa e Pablo Bruno de Paula dos Santos.

Leia poemas de Eugénio de Andrade aqui.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Três poemas de Hugo Padeletti




LUZ NEGRA

O coração sangrento
do Abismo,
o Olho que decide os destinos
escravos,
esculpiu seu templo no fundo
do fundo da luz.
Está sentado
para sempre no trono
de si mesmo,
cujo recinto real, livre
de todo servilismo
é sempre, sempre, sempre o mesmo Abismo

de luz negra.


POUCAS COISAS

A Haydée e Juan Grela

e sentido comum
e a jarra de louça, graciosa,
com o ramo
resplandecente.

A difícil
extração do sentido
é simples:

o ato claro
no momento claro
e poucas coisas
verde
sobre branco.


AGORA SOU UM OLHO

Agora sou um olho
imóvel no céu,
uma nostalgia sem eu
que forma nuvens no céu.

Agora sou a imagem do quadro, sobre fundo
de vermelho sombrio,
o olhar perdido em insondável dignidade,
reclinado num marco de ouro.

Amanhã terei caído
num poço de sangue,
numa velha armadilha familiar,
terei me enredado entre os fatos.

Amanhã terei me rebaixado até num tapete
desgastado,
até o pó que acende os desejos,
até a culpa.


Hugo Padeletti nasceu em Alcorta no dia 15 de janeiro de 1928. Os anos vividos nesse ambiente rural impregnaram logo seus poemas, atentos à passagem das estações do ano, à natureza e “à paixão delicada embora firme do real”, como escreveu Juan José Saer. Publicou seu primeiro livro de poesia aos trinta anos e a partir de então desenvolveu uma das obras poéticas mais sólidas, sábias e belas da literatura argentina. A criação plástica cresceu acompanhada a vários de seus livros, como La atención (1999), em que os textos aparecem acompanhados pela obra gráfica. No início dos anos 1960 viajou a Berna com bolsa de estudos para estudar a obra de Paul Klee; foi nomeado diretor do Museu de Belas Artes Rosa Galisteo de Rodríguez, situado na capital de sua província natal. Radicado desde 1984 na cidade de Buenos Aires, em 1989 publicou Poemas 1960-1980, antologia com a qual obteve o Prêmio Boris Vian; em 1990 publicou Parlamentos del viento; Apuntamientos en al Ashram no ano seguinte. A partir de então aspectos de diferentes religiões orientais e ocidentais, como a culpa, o perdão e a graça ganharam parte na sua obra. Publicou ainda outros títulos como Plancton (1998) e Canción de viejo (2003). Morreu em 12 de janeiro de 2018.

* Traduções de Pedro Fernandes de O. Neto 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Três poemas de Giuseppe Ungaretti



TÉDIO

Também esta noite passará

Esta solidão em torno
sombra titubeante de fios viários
sobre o úmido asfalto

Olho como os cocheiros
a meio-sono
cabeceiam

*

Sou uma criatura
Como esta pedra
de São Miguel
tão fria
tão dura
tão ressecada
tão refratária
tão totalmente
exânime

Como esta pedra
é o meu pranto
que não se vê

A morte
desconta-se
vivendo

Atrito
Com minha fome de lobo
amaino
meu corpo de cordeiro

Sou como
a barca ínfima
e o libidinoso oceano


JUNHO 

Quando
me morresse
esta noite
e feito um outro
pudesse olhá-la
e adormecer-me
ao rugitar
das ondas
afinal
enoveladas
à cerca de acácias
de minha casa

Quando me despertar
no teu corpo
que se modula
feito voz de rouxinol

Se extenua
como a cor
reluzente
do grão maduro

Na transparência
da água
o ouro velino
da tua pele
se brunirá de mouro

Librada
pelos ladrilhos
estrídulos
do ar serás
como pantera

Ao talho
móvel
da sombra
te esfolharás

Rugindo
emudecida na
poeira
me sufocarás

Depois
entreabrirás as pálpebras

Veremos nosso amor reclinar-se
feito o entardecer

Depois verei
sereno
no horizonte de betume
de tuas íris morrerem-me
as pupilas

Agora
o ar sereno se clausura
assim como
na minha terra da Africa
os jasmins

Perdi о sono

Oscilo
num canto da rua
qual lucíola

Me Morrerá
esta noite?

Giuseppe Ungaretti nasceu no Egito no dia 8 de fevereiro de 1888; o pai trabalhava na construção do canal de Suez e por isso toda família havia se mudado para aquele país. Fez parte dos estudos na Sorbonne de Paris, onde colaborou na revista Lacerba. Voltou à Itália em 1914 e se engajou voluntariamente como soldado na Primeira Guerra Mundial. Combateu em Trieste, numa das frentes mais duras do conflito, e depois na França. Sua primeira obra foi publicada em 1916 – era uma antologia de poemas intitulada Il porto sepolto; a poesia de então refletia sobra suas experiências no front. Em 1919 publica Allegria di naufragi, que foi uma reviravolta em relação à obra de estreia. Colaborou assiduamente com revistas e trabalho com professor de línguas; seu primeiro emprego fixo foi no Brasil, onde viveu entre 1936 e 1942 e deu aulas de Literatura Italiana na Universidade de São Paulo. São obras suas, dentre outras, Setimento del tempo (1933), Il dolore (1947), La terra promessa (1950) e Il taccuino del vecchio (1960).

* Tradução de Haroldo de Campos.