segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Quatro poemas de Lourdes Espínola




Nascer mulher-poeta

A alternativa:
saltar da varanda; estilhaçá-la.
Saias, leque, fio, agulha:
dispo-me e insurjo-me.
Estou farta de olhar a vida
desta varanda!
Cárcere semicircular
orelha surda, surda boca
grito e falo
do solitário oficio de escrever.
Manuscrito de visões interiores,
espelhos de mulher abrindo-se.
Nasço
rasgando fontes de veneno.


Delmira

Ser contradição ou mulher
é a mesma coisa, afinal,
arder
fingir pudor
calar, cantar
adorar o próprio corpo
engalaná-lo com vestidos
cremes, perfumes e artifícios
tudo envolto cm falsa modéstia.

E ter
a medida exacta,
o olhar virginal
os olhos sorridentes
mas desejando
a longa carícia
que solte os cavalos
do desejo sabiamente reprimido.

Solidão

Com o cheiro dos meus poros,
inclinas-te comodamente
sobre o longo corredor do meu peito.
Órfã de mim mesma,
percorres as minhas entranhas,
reconheces o ten velho território.
Escorpião mordido
pelo seu próprio veneno
vejo-me retorcida
no teu sorriso final.


(DE COMO AS MULHERES ESCREVEM POEMAS ERÓTICOS)

Se escrevesse um poema sobre nós,
seria censurada.
Deixa-me então contar-te
como o junco se faz cana
e espalha lá dentro o seu mel oculto.
Ou falar-te daquela orquídea violeta
de pétalas e pétalas que navegam em seria,
ou de como ela se abre
e entram estrelas
que iluminam o sangue, esse que estava adormecido.
E de como os olhos bebem
o dicionário todo.
Mas façamos um contrato:
a ninguém o contemos
para que este poema não morra censurado.


I
A viagem da minha vida:
suficientemente fechada
para me proteger,
suficientemente porosa
para que tu penetres...


II
A minha roupa virada do avesso,
com as costuras à mostra:
pequenas cicatrizes do meu corpo.
Procurar equilibrar um anjo
nas tuas longas pernas,
é assim que me tens...
e manténs.


III
A lua foi um presente poeirento
- perfeito e único -
que tinha que devolver no dia seguinte:
dependurei-a, pontual,
polida, clara,
dançando na ponta dum fio transparente.

Restaurar o meu corpo,
dar-lhe
luz, cor, movimento
ou talvez um coração espremido
em frases de poemas como fugas.
Um gesto, uma sombra, uma silhueta,
construir com círculos de ritmo
um rosto, uma luz, um carrocel,
ou melhor, uma perfeita analogia.
Restaurar o meu corpo:
Uma abstracção tão luminosa cm seu desejo.

Despi-me toda:
dos dedos ao ventre,
da minha pele à tua,
do meu pulsar à tua mão.
Estendi-me,
a oferenda dos deuses:
palpitante, morna,
balbuciando segredos.
E puseste as mãos
em concha, como ninhos,
e sentiste o fogo
e fechaste os olhos.
A luz brilhante cega
quando não a esperamos.

Lourdes Espínola nasceu em Assunção, Paraguai, em 9 de fevereiro de 1954. Formada nas áreas de Ciências, Relações Internacionais, Humanidades e Literatura, é detentora de títulos adquiridos nas seguintes universidades North Texas State University (EUA), Southwest Texas State University (EUA), Universidad Nacional de Asunción (Paraguai) e Universidad Complutense de Madrid. É poeta, crítica literária e jornalista. É autora de livros como Ser mujer e otras desventuras, Tinta de Mujer Las palabras del cuerpo.

* Traduções de Albano Martins.

Nenhum comentário:

Postar um comentário