sábado, 15 de setembro de 2012

Dois poemas de Bocage



Retrato próprio 

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno.

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo, de moças mil) num só momento
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento.
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou mais pachorrento.


Recreios campestres na companhia de Marília

Olha Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira:

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mas tristeza que a morte me causara.

Manuel Maria du Bocage nasceu em Setúbal em 15 de setembro de 1765 e morreu em Lisboa, em 21 de dezembro de 1805. É reconhecidamente um dos nomes mais significativos do Arcadismo português, mas sua obra o insere entre uma zona de transição entre este movimento e o romantismo. Escreveu poemas que foram reunidos em títulos como Elegia, Improvisos de Bocage e Mágoas Amorosas de Elmano. Atualmente pode-se encontrá-las em Opera Omnia, Poesias (lírica, sátira e poesia erótica) e Poesias de Bocage.

Nenhum comentário:

Postar um comentário