QUE FAREI
QUANDO TUDO ARDE?
Desarrezoado
amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.
Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:
Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.
Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:
Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?
O CORAÇÃO
QUE VOS VÊ
O coração
que vos vê
aos olhos que vos não vêem
não nos culpem, que não têm
alguma razão porquê.
Cada hora este olhos canso
por estes montes arriba
que à vista curta e cativa
tolhem todo seu descanso.
Deixem-nos cegar, que têm
olhando razão porquê:
o coração que lá é
os tristes choram d'aquém.
aos olhos que vos não vêem
não nos culpem, que não têm
alguma razão porquê.
Cada hora este olhos canso
por estes montes arriba
que à vista curta e cativa
tolhem todo seu descanso.
Deixem-nos cegar, que têm
olhando razão porquê:
o coração que lá é
os tristes choram d'aquém.
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[Francisco de] Sá de Miranda nasceu a 28 de agosto de 1481 (?) em Coimbra. Contemporâneo de Luís de Camões, o célebre autor de Os Lusíadas, o poeta foi um introdutor do soneto na literatura portuguesa e do Dolce Still Nuovo. Morreu a 17 de maio de 1558 (?) em Amares.
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