segunda-feira, 22 de março de 2010

Dois poemas de Sá de Miranda



QUE FAREI QUANDO TUDO ARDE?

Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:

Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?


O CORAÇÃO QUE VOS VÊ

O coração que vos vê
aos olhos que vos não vêem
não nos culpem, que não têm
alguma razão porquê.

Cada hora este olhos canso
por estes montes arriba
que à vista curta e cativa
tolhem todo seu descanso.
Deixem-nos cegar, que têm
olhando razão porquê:
o coração que lá é
os tristes choram d'aquém. 



[Francisco de] Sá de Miranda nasceu a 28 de agosto de 1481 (?) em Coimbra. Contemporâneo de Luís de Camões, o célebre autor de Os Lusíadas, o poeta foi um introdutor do soneto na literatura portuguesa e do Dolce Still Nuovo. Morreu a 17 de maio de 1558 (?) em Amares.

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