terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Dois poemas de Alberto de Lacerda




Ali onde sem nome a pátria escura 
me repete onde nasce a Primavera, 
ao silêncio do dia que não espera 
eu dou a voz subitamente pura. 

Horror que foge sempre e que perdura, 
muro imortal amando a própria hera, 
assim eu oiço o anjo além da fera, 
suave luz queimando a noite dura. 

Surge um fogo sem espanto, negro e alvo. 
Dissolve‑se a montanha. Totalmente. 
Alguém que me seguia já está salvo. 

E fico só. E canto. E sigo em frente. 
Ao fim da minha voz encontro o alvo 
onde os deuses a ferem mortalmente.

20/02/1954


OS POETAS E OS AMANTES 

Ignoram e sabem. São o vento 
que orienta os caminhos verdadeiros. 
Redentores dos deuses nos humanos, 
ei‑los — 
a fúria solene das noites que amanhecem, 
as lágrimas dos olhos ignoradas, 
a doçura das praias que prosseguem, 
conservando na areia, durante algum tempo, 
os passos humanos.

Alberto de Lacerda nasceu a 20 de setembro em Moçambique. Mudou-se para Lisboa em 1946, daí para Londres e Estados Unidos, países onde divide sua vida até 27 de agosto de 2007, data da sua morte. Dentre os livros publicados estão 77 poemas, (1955), Palácio (1961), Exílio (1963), Tauromagia (1981), Oferenda 1 (1984), Meio-dia (1988), Sonetos (1991), Oferenda 2 (1994), Átrio (1997) e Horizonte (2001).

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