terça-feira, 30 de junho de 2020

Quatro poemas de Menotti Del Picchia




TORRE DE BABEL

Eles ergueram a torre de Babel
bem na Praça Antônio Prado.
O esqueleto de aço cobriu-se de carne de cimento
e as vigas e guindastes
eram braços agarrando estrelas
para industrializá-las em anúncios comerciais.

Italianos joviais,
húngaros de olhos de leopardo,
caboclos de Tietê arrastando o caipira.

bolchevistas da Ucrânia,
polacos de Wrangel,
nipões jaldes como gnomos nanicos talhados em âmbar

entre as pragas dos contramestres,
os rangidos das tábuas do andaime,
o estridor metálico
das vigas de aço e dos martelos sonoros,
no céu libérrimo de S. Paulo,
fizeram a confusão das línguas,
sem perturbar a geometria rigorosa
do ciclópico arranha-céu!

Lá do alto, o paulista,
bandeirante das nuvens,
mirou o prodígio da Cidade alucinada:
uma casa de três andares
pôs-se a crescer bruscamente
como nos romances de Wells;
outra apontou a cabeça arrepelada de caibros
acima do viaduto do Chá;
e começou a desabalada carreira
do páreo do azul.
O formidável arranha-céu
com a cabeça nas nuvens
abrigou no seu ventre de concreto
o drama da nova civilização.

Onde estás, meu seráfico Anchieta,
erguendo com o barro de Piratininga,
pelo milagre da tua persuasão,
as paredes rasteiras do Colégio?


CANÇÃO DO MEU SONHO ERRANTE

Eu tenho a alma errante
e vago na terra a sonhar maravilhas...

Não paro um momento!
Eu busco irrequieto o meu sonho inconstante
e sou como as asas, as velas, as quilhas,
as nuvens, o vento...

Eu sou como as coisas inquietas: o veio
que canta na leira; a fumaça que voa
na espira que sobe das achas; o anseio
dos longos coqueiros esguios;
a esteira de prata que deixa uma proa
no espelho dos rios.

Eu tenho a alma errante...
Boêmio, o meu sonho procura a carícia
fugace, procura
a glória mendaz e preclara.
Sou como a vela fenícia
ao largo, uma vela distante...

Eu tenho a alma errante...
E sinto uma estranha delícia
em tudo que passa e não dura,
em tudo que foge e não para...


DESILUSÃO

E que é amar? A estranha dor
de estilhaçar a alma em carinho...
É colher ao acaso alguma flor
para despetalá-la no caminho.

E que resta depois de tantos ais?

A saudade? Talvez... Ó alma enganada,
de ti e da flor não resta quase nada:
um punhado de pétalas na estrada,
um perfume nos dedos... – Nada mais.


O CADÁVER DO ANJO

Sob os destroços do avião estava esmagado o anjo.

Os homens de Canaveral
concluíram que era um habitante de um planeta morto.

As asas de penas e a estrutura de pássaro
eram porém de uma ave monstro
com o rosto de um jovem lindo
de olhos tão azuis como a poeira celeste
que envolvia seu fluido cadáver.

Os sábios se orgulhavam de haver destroçado o céu
e feito debandar os anjos.

Este, porém, viera protestar contra a invasão do seu
        reino
e denunciar que os homens estavam assassinando
        mitos e sonhos.

Batera na asa do jato supersônico que frechava para a
lua

e ambos
o Ícaro bélico e o Mensageiro dos deuses
rolaram no espaço
e se espatifaram na lama.

Menotti Del Picchia nasceu em São Paulo a 20 de março de 1892; ainda criança, a família mudou-se para Itapira, cidade onde fez suas primeiras incursões pelas letras. Voltou a São Paulo para cursar Direito, formação que, ao lado do trabalho vocacional para o jornalismo, exercerá por toda a vida. Morou alguns anos em Santos e retorna, em definitivo para a cidade natal, em 1920. A partir de então começa a articular os princípios do modernismo e do futurismo que resultarão mais tarde, na companhia de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros, na Semana de Arte Moderna. Escreveu prosa (romance, contos e crônicas) e poesia; deste gênero destacam-se O amor de Dulcineia (1930), Juca Mulato (1917), Máscaras (1920), O Deus sem rosto (1968), Poemas do vício e da virtude (1913), entre outros. Morreu a 23 de agosto de 1988.



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