terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Cinco poemas de Bruno de Menezes


 

VISÃO AÉREA
 
Loura e magra.
Um tanto
de felina, outro tanto
de ofídica.
Um perfil de estatueta de Tanagra,
como dizem os poetas.
Mas eu achei-a fluídica,
imponderável, quase etérea.
Talvez, para os estetas,
fosse a visão aérea...
 
De onde vinha? Não sei.
O caso é que sorria, andava em passos leves,
com um chapéu de organdy
talhado em rosa branca.
De onde vinha? Não sei.
Eu apenas a olhei
uns três minutos breves.
 
Se bem que o seu chapéu fosse uma rosa branca,
o vestido com que a vi,
chic, em verdade,
dava-lhe um ar de bebê
que ainda vestisse bibe...
 
E ela que vinha a pé,
— vitrina humana que o rigor da moda exibe —
com o vestido que a vi,
julguei que ela ficava
dependurada contra as leis da gravidade...
 
Fechei os olhos... Loura e magra, ela passava...
 
 
ESCOLA DOS SAPOS
 
Do charco à beira fica o colégio dos sapos.
As aulas são noturnas e o período letivo
é quando o inverno facilita aos alunos sair.
 
Ah! Que alegria quando chove e a escola aquática funciona!
Aos grulhos que são ralhos as mães batráquias vendo a chuva
correm com a saparia infantil para a escola.
 
O método é à moda e ao tempo do “Estudante alsaciano”:
— lições bem decoradas ditas em rasgos de regougos.
Um velho sapo idealista professor de matemática,
que vive amando a Lua entre as ninfeias pelo charco,
pergunta em rouca sabatina
a tabuada aos estudantes.
E eles respondem como em coro:
 
                8 + 8 = 18
                8 + 8 = 18
 
… enquanto o mestre sonhador,
de olhos perdidos nas estrelas
ruge em meio ao silêncio
alheio à aula e aos seus discípulos:
 
                stá errado!
                Stá errado!
 
E em torno a saparia adulta vaia os sapinhos madraços.
 
                Deu rata…
                DEU RATA…
 
 
MÃE PRETA
 
No acalanto africano de tuas cantigas,
nos suspiros gementes das guitarras,
veio o doce langor
de nossa voz,
a quentura carinhosa de nosso sangue.
 
És Mãe Preta uma velha reminiscência
das cubatas, das senzalas,
com ventres fecundos padreando escravos.
 
Mãe do Brasil? Mãe dos nossos brancos?
 
És, Mãe Preta, um céu noturno sem lua,
mas todo chicoteado de estrelas.
Teu leite que desenhou o Cruzeiro,
escorreu num jato grosso,
formando a estrada de São Tiago…
 
Tu, que nas Gerais desforraste o servilismo,
tatuando-te com pedras preciosas,
que deste festas de esmagar!
Tu, que criaste os filhos dos Senhores,
embalaste os que eram da Marquesa de Santos,
os bastardos do Primeiro Imperador
e até futuros Inconfidentes!
 
Quem mais teu leite amamentou, Mãe Preta?
 
Luiz Gama? Patrocínio? Marcílio Dias?
A tua seiva maravilhosa
sempre transfundiu o ardor cívico, o talento vivo,
o arrojo máximo!
 
Dos teus seios, Mãe Preta, teria brotado o luar?
Foste tu que na Bahia alimentaste o gênio poético
de Castro Alves? No Maranhão a glória de Gonçalves Dias?
Terias ungido a dor de Cruz e Souza?
 
Foste e ainda és tudo no Brasil, Mãe Preta!
 
Gostosa, contando a história do Saci,
ninando murucu-tu-tu
para os teus bisnetos de hoje…
 
Continuas a ser a mesma virgem de Luanda,
cantando e sapateando no batuque,
correndo o frasco na macumba,
quando chega Ogum, no seu cavalo de vento,
varando pelos quilombos.
 
Quanto Sinhô e Sinhá-Moça
chupou teu sangue, Mãe Preta?
 
Agora, como ontem, és a festeira do Divino,
a Maria Tereza dos quitutes com pimenta e com dendê.
És, finalmente, a procriadora cor da noite,
que desde o nascimento do Brasil
te fizeste “Mãe de leite”…
 
Abençoa-nos, pois, aqueles que não se envergonham de Ti,
que sugamos com avidez teus seios fartos
— bebendo a vida! —
Que nos honramos com o teu amor!
 
TUA BENÇÃO, MÃE PRETA!
 
 
NA SOLIDÃO DA NOITE TROPICAL
 
A alma da solidão está orando…
É a Páscoa do Silêncio,
com a hóstia da Lua Etérea…
Velhas, anosas mangueiras,
aconchegadas, taciturnas,
rezam sob o véu místico do luar…
 
Ao pulsar irregular do coração,
o poeta, que partiu célere,
para o desejo aventureiro,
retorna, passos tardos,
em tédio e arrependimentos.
 
Na solidão da Noite tropical
que se irmana à alma do Poeta,
a Cidade dorme, confeitada de luar…
 
Desdenhando os prédios orgulhosos,
que escalam o espaço,
absorto na majestade da amplidão,
caminha o Poeta pelas antigas avenidas,
procura a sombra luarina
dos jardins sem idílios,
transformados em parques urbanísticos.
 
O Poeta segue… E em passos pensativos
procura os subúrbios proletários,
onde as humildes palhoças
têm apenas o pão da Lua Cheia…
Quando regressa,
traz a Mensagem da pobreza conformada…
 
O vago vulto de um vigilante noturno
deambula insone, fumando um triste cigarro,
e apita nervosamente.
Na Praça histórica,
abandonada, silente,
ante o céu azúleo e luminoso,
um chafariz vazio,
na impassível frialdade do mármore,
evoca o patriarcalismo colonial,
quando a Cidade nascia.
 
Nos largos bancos lajeados,
onde os líricos namorados
se iludem mutuamente,
jazem corpos abandonados
que ressonam rascantemente.
 
Continuando a Via-crúcis da Cidade,
o Poeta prossegue,
enquanto as Horas alongam a Noite
e o casario burguês fechou as pálpebras,
para o falso e rico amor…
 
Mergulhando na quietude serena,
faz-lhe bem o sossego da Cidade,
na imensidão maior da Noite branca,
em que o Poeta se recolhe
para cismar e esquecer…
 
Esquecer ou recordar,
Bem-amadas como a Lua romântica,
inspiradoras e incompreendidas…
 
No imenso silêncio friorento,
um sino acorda a madrugada.
Peregrinando, sonambulando,
o Poeta surpreende nos portais
amores que não têm leito para o prazer…
 
E vai passando… vai sonhando,
integrado na solidão reminiscente,
que é a Verônica da Cidade,
no seu cotidiano despertar.
 
Rumores matinais
escorraçam o Silêncio,
quando alvora a voz do sino,
como sentinela perdida…
 
O Poeta também desperta
dos remotos sonhos adolescentes…
 
A Cidade amanhece,
na trepidação dos ruídos nevrosantes…
 
 
IARA
 
Pôr-do-sol sobre as águas.
Asas que se recolhem.
Ocaso em mutações arcoirisadas.
Duas verdes pupilas, fúlguras, redondas,
à flor das águas bolem
e espiam por trás das árvores paradas…
 
O silêncio é um êxtase na mata.
Corta o rio dormente
trêmula retração que as pupilas retrata.
É quando a Iara vem, trazendo no olhar fulvescente,
sortilégios de sono, amores de sonho e de lenda,
do fundo abismal do rio…
 
Rompe com seus seios virgens a renda
flórea e tênue das águas… Emerge o corpo frio.
 
E olha em torno… Tem malefícios no olhar…
 
Lento, cadenciado, um remo fere as águas.
A Iara canta… Embala as saudades lendárias…
O remo para de remar!…
Olhos verdes de Iara… Assombramentos do Rio-Mar.
 
Bruno de Menezes nasceu a 21 de março de 1893, em Belém. Sua vivência e interesse pela literatura começa na juventude quando forma com amigos o grupo “Vândalos do Apocalipse”, mais tarde, “Peixe Frito”, do qual fez parte nomes como Dalcídio Jurandir. Um ano depois da Semana de Arte Moderna em São Paulo, funda o que viria ser um dos primeiros veículos do Norte do país dedicado à arte modernista, a revista Belém Nova. Batuques, seu quarto livro o integra entre os primeiros poetas que tematizaram a cultura afro-brasileira. Além desse título publicado em 1931, escreveu ainda no mesmo gênero Crucifixo (1920), Bailando no lunar (1924), Poesia (1931), Lua sonâmbula (1953) e Onze sonetos (1960), dentre outros. Escreveu ainda prosa (textos sobre folclore e cultura popular, novela e romance). Morreu em Manaus a 2 de julho de 1963.
 

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